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19/08/2008 00:37
Postando para não sair do ar ;]
Abraços.
enviada por Carlos Henrique
28/06/2005 13:48
Há tempos não há posts. Há tempos, vários deles. Achoq ue o soma 3 virou uma plantinha na qual eu só boto água de vez em quando. beleza.
Mas tenho uma historinha nova. E pra não misturar, deixo um recado antes da historinha. É que o blog da Bienal está a todo vapor! Nós estamos colocando muita água naquela plantinha!!!
http://bienal2005.blogspot.com/
Agora a historinha.
ida
Os tontos estavam transtornados. Cada vez menos frequentes, viam contos partirem sem razão. Iam, pra nunca mais voltarem. Iam contos. Iam tontos.
enviada por Carlos Henrique
13/06/2005 11:44
Gugenhein Bilbao e as curvas da escultura
Imagine um museu que não se importa com o que já foi
produzido como arte, que não está nem aí pra todas as
obras que existem. Parece sem propósito ou, no mínimo,
incoerente. Mas este é o caso do Gugenhein em Bilbao.
"Ah, então é uma porcaria!", alguém poderia se
antecipar, tendo em vista aquilo que na faculdade os
professores acham (e querem que assimilemos) que é
certo e dever do arquiteto). Porém, é uma obra
excelente e que funcina perfeitamente para o que foi
projetada.
Vamos esquecer a superprodução tecnológica nos
laboratórios estruturais de Frank O. Ghery pra deixar
aquilo de pé. Que tipo de obra cabe ali, que apareça
mais que o museu? Respondo: uma obra de arte que seja
feita para aquele museu, ou que tome partido da
riqueza da experiência que ele proporciona, diferente
daquelas obras expostas em ambientes praticamente
nulos "para que a obra apareça" - como dizem os
neo-conservadores ou o chavão arquitetônico.
É claro que neste museu cabem obras já existentes.
Corre-se o risco, nestes casos, deixarem a obra de
lado pra visitar o museu. E não está errado. Afinal, a
pessoa quer ver aquilo que é mais interessante. Depois
de algumas visitas voltará a ver as obras penduradas.
O programa de necessidades, aí, funciona como atrativo
para uma experiência espacial distinta das cotidianas.
Faz parte deste público o homem cosmopolita que não
tem tempo de contemplar a aparente disjunção da
natureza, por exemplo.
Entretanto, o que chamamos de arte - ainda no sentido
antigo deste nome (escultura, pintura... as grandes
artes) - passa a se apropriar da experiência
proporcionada pelo museu. Na revista Bravo! deste mês,
há uma matéria sobre a obra de Richard Serra, que terá
exposição permanente numa das salas enormes do museu.
A escultura, de aço fundido especialmente para a obra,
e cujo desenvolvimento final contou com os engenheiros
do escritório de Ghery e seus programas de cálculo
para geometrias não-euclideanas, é considerada a maior
escultura do mundo. Não que estar no Guiness seja
algum mérito. O mérito é que num museu onde a
arquitetura vira escultura, a escultura vira
arquitetura. Tudo bem que o arquiteto sempre fez isto;
mas o escultor também.
A obra de Serra é toda feita de fitas que se enrolam,
escorrem, ondulam, formando módulos de contato com o
observador. Fala do tempo descontínuo.
O interessante, a partir de experiências como estas, é
que passa a haver uma interessante sobreposição das
camadas constituintes de um museu. Como acontece na
produção espontânea da cidade. E assim também é no
evento brasileiro Arte-Cidade, trocando o museu de
Bilbao pelo espaço expositivo proposto.
Ou seja, pensar o museu esquecendo de todas as obras
que já foram produzidas até então - quando existe a
possibilidade de - é uma experiência magnífica, tanto
para quem faz como para quem produz e visita.
enviada por Carlos Henrique
20/05/2005 02:09
Octavio,
o movimento dos sem-teto e dos sem terra já um pouco do "vamos invadir sua praia". Invasão de condomínio pode ser um outra praia, frutífera inclusive.
Nessa esculhambação toda, onde fica o Estado? hehe Que beleza (e eu realmente comemoro!), ele está caindo! Acho que ainda vai tudo virar uma baderninha antes de a humanidade aprender a viver em paz, mas a gente chega lá.
Muita gente entroniza a favela, com discursos românticos sobre a nova urbanidade, do resgate da cidade medieval, do traçado caótico, etc. Oras, esta é a forma dos ricos e dos que querem pagar terem sua cidade medieval. Cada um com a sua, e ninguém com nenhuma. Será mais chato? Não sei. Muita gente diz que infância sem video game era mais legal, mas as crianças de hoje não acham. (mas aí é outro lance, que é o de idealizarmos o passado.)
Será que o mundo vai virar uma favela? Ou a favela vai virar o mundo?
Convém ficarmos brincando de consertarmos este sistema sem curar a podridão lá da raiz? Ou seria melhor colocarmos outro sistema? Capitalismo ou comunismo, de que servem senão para apresentarem sistema de regras? Não seria melhor um sem-sistema? Um não-sistema, como um não-objeto?
Quem está no condomínio, está dentro da cidade, ou está fora? Eu considero o condomínio um buraco negro, algo que foi subtraído. É um fora localizado dentro da cidade. É uma ilha, um fora cercado de dentros. Não faço aí juízo de valores.
Semelhante temos redes como a C&A. Qual a diferença entre a do shopping e a do centro da cidade? Ao entrarmos, estamos num espaço híbrido, flutuante, subtraído. É quase uma hiperdimensão.
Chega.
Carlos Henrique.
--- Octavio Queiroz escreveu:
---------------------------------
Estou hoje aqui terminando um trabalho (que provavelmente avançará
noite a dentro) mas aproveito para intervir rapidamente:
A questão das cidades planejadas nos dias de hoje é bem interessante:
tanto os condomínios (fechados ou não) como os subúrbios planejados
estão surgindo pelo mundo todo em tal quantidade e dimensão que é um
aspecto urbano de grande importância.... Aqui em São Paulo, só para
citar um exemplo, o condomínio Alphaville já tem mais de dez versões
ampliadas, sendo atualmente uma enorme, para não dizer gigantesca,
cidade planejada e quase auto-suficiente. Muitos de seus jovens
habitantes vivem como numa bolha... vendo o Brasil real apenas pela
televisão...
Será que estamos retornando a uma nova Idade Média, com as seus
povoados, vilas e burgos murados e fortemente armados ?
As cidades (megalópolis, hiperpólis) e seus arredores adquiriram uma
tal dimensão e complexidade que o poder público, por mais boa vontade
que tenha, já não consegue regular o caos... As medidas são sempre
paliativas e emergênciais... e o deficit não para de crescer... assim
como os seus habitantes...
Todos os anos migram para as cidades milhares de pessoas fugindo da
vida miserável no campo... enquanto isso o governo gasta milhões em
subsídios para que novos agricultores (MST) consigam um novo pedaço
de terra... pouco fazendo para evitar que os milhares de "migrantes"
fiquem nas terras que sempre cultivaram, indo viver em sub-construções
miseráveis nas já caóticas cidades.
Será que o futuro reserva-nos conjuntos de cidades "planejadas"
(condomínios, vilas, burgos) murados e fortemente vigiados, cercados
pela cidade "não planejada" ou de geração espontânea ? Haverá um
movimento do tipo "vamos invadir a sua praia..."? O Movimento dos Sem
Condomínio ou MSC ?
Qual será o papel do arquiteto e urbanista nesta nova realidade ?
saudações cordiais
Octavio Queiroz
enviada por Carlos Henrique
19/05/2005 19:55
- participo de um e-group bem ativo, que discute arquitetura. Na maioria, como na maioria do planeta terra, acho as opiniões lá bem retrô. Mas vou postar de vez em quando comentários meus e deles, mesmo que eu não concorde. Quem sabe os comentários no blog não sejam também uma outra oportunidade de discutirmos arquitetura? -
: : a mensagem anterior (do grupo) foi, em resumo, uma pergunta sobre a existência de uma cidade planejada que realmente funcione, ou que seja muito boa, coisa do tipo. Falaram de BH, Brasília, Chandigard... sim, eles são todos meio modernistas... Alguém também falou como era legal a complexidade do The Sims. : :
Amigos,
Conheci Brasília ano passado, no ENEA (que foi realmente pessimamente organizado).
Chandigard eu não conheço pessoalmente, mas é horrorosa. Logo, se as fotos não salvam um lugar, imagino os fatos... devem ser piores.
Brasília pra mim foi uma decepção. Não que eu achasse que seria a cidade dos sonhos, mas imaginei que gostaria tanto quanto do modernismo carioca no Rio (copacabana, niterói, centro, canoas, etc.). Foi brochante, mas mesmo assim os monumentos (alguns) impressionam um pouquinho. Pensei que entraria na catedral de nossa senhora e veria Deus, com aquele papo do escuro e do claro... que tristeza... o tunel deveria ter o dobro do comprimento pra acontecer o "banho de luz". Talvez acontecesse antes dos vitrais, mas foi muito menos do que eu esperava. Tudo foi assim.
Aí o que eu decidi lá? Que tiraria fotos mostrando a Brasília que eu gostaria de ter visto, e não a que eu via como urbanista. Não queria tirar fotos só pra falar que aquilo deixa a desejar (quando comparamos com o mito do que "dizem ser"). Me interessavam as fotos possíveis, e não a cidade, pois eu ainda podia salvar meus frames daquela tragédia toda! (hehehe)
Conheci boa parte da cidade, e apesar de melhor que Chandigard, que tristeza... prefiro Porto Alegre e Copacabana, por enquanto minhas favoritas.
Urbanismo eu acho que é mentira. Mas se alguém vai construir uma cidade, prefiro que tenha um bom arquiteto envolvido no desenho dela e no pensar das relações, para permitir uma liberdade ao usuário que a política tenta suprimir. Encaro a escala urbana como só mais um desdobramento da arquitetura, uma das infinitas escalas do design do real. Mas isso é outra história.
Sobre o the Sims, é realmente muito interessante. Se vc construir paredes que isolem a pessoa, como numa jaula cega, ela começa a entrar em depressão, fica suja, e morre de fome (não tive tempo de fazer isso). Mas eu gosto mais do Sim City. A versão 2000 trazia uns edifícios futuristas à la Archigram, muito legais. O 3000 tem gráficos melhores e menos possibilidades fantásticas. É mais pragmatizante, mais chato, e pode fazer menos bem para as crianças que o 2000. Mas é bem legal também, principalmente pela rede de transportes coletivos.
enviada por Carlos Henrique
12/05/2005 03:52
logo eu posto alguma coisa nova
enviada por Carlos Henrique
09/03/2005 03:05
sim!
vou-me embora
pra Pasárgada
sim
enfim
é o fim no meio
vou-me embora!
[3.04am - ouvindo sigur rós: álbum 01, faixa 01]
enviada por Carlos Henrique
07/03/2005 01:00
"O botão desaparece na flor que desabrocha, como se ela o negasse; da mesma forma, o fruto coloca-se em lugar dela como se a existência da flor fosse falsa. Essas formas não apenas diferem, mas rejeitam-se como incompatíveis. Porém não só não se contradizem, como uma é tão necessária quanto a outra, e significa a vida do todo" - HEGEL
...AGORA MAIS UNS CONTOS MEUS:
SAND.ÁLIA
Comia cartas amassadas de ontem. Temperava com pedriscos. Enfiava uma colher na boca e nua assistia televisão sem vontade de levantar nem trocar de canal.
Gritava a guria rasgando os papéis entalados na garganta e estourando o peito sufocado! Mordia a colher, lascava os dentes. Cortava a língua com a pressão da colher mordida, sentia o gosto do sangue e chorava. Compulsiva e descontroladamente.
Raiva de mais um dia incapaz de permitir sua navegação pelas atividades disponíveis.
* * *
SAIA
Descobriu que tinha um pouco mais. A menina já se fora, estava escuro. Pensava em comer, mas a louça se acumulava. Dormia num lugar muito parecido com um depósito de lixo, ficando espalhadas pelo chão partes de si, que desvestia toda noite.
Correu para atender o telefone. Nem queria, mas estava acostumado. Uma porcaria isso. Correr para dar satisfações ou prestar agradecimentos ou agradar ou passar uma imagem mentirosa. Poderia ser sincero, mas isso desencadearia novamente o processo de ter de dar satisfações, agradecer, agradar. Ou se aborrecia de um jeito ou de outro. Idiotas atendem ao telefone. Devia ter deixado tocar aquele barulho irritante até que ele morresse, máquina infernal!
Acendeu o fogão. Apagou. Sentou-se, ligou a TV. A menina não ligaria mesmo, já sabia. Desligou. Pôs um tanto razoável de vinho no copo. Cheirou. Bom. Bebericou e desistiu. Não queria isso. Ia arrumar o quarto. Muita zona, nossa! Apatia.
Tinha ainda esperança. Na medida certa para conseguir ser pessimista. Ficava lendo coisas difíceis e deixava a menina de lado. Era mesmo só isso o que sabia fazer. Fechava o livro e a cara. Não queria o que sabia. Já sabia.
* * *
RAIVA
Quatro da manhã e estava ali, parado. Em frente a uma tela branca, idiota, sentado desconfortavelmente naquela cadeira suja, ouvindo música irritante e alta, a mesma há um bom tempo. Com sono, achando que precisava tomar banho e com preguiça de tirar os óculos.
Acordaria como na manhã anterior a esta madrugada: em cima da cama desarrumada, à hora do almoço. Com a luz acesa, barulho da mesma música de sempre, computador ligado, mensagens piscando. Mal humorado, com hálito de ressaca sem beber e olhos insistentemente fechados punia seu desleixo. Olhava-se no espelho, horrível. Culpa sua. Culpa: esse era o lacre na tampa.
Ficaria ali por mais um tempo. Ainda quatro da madrugada anterior ao sono. Não conseguia mais dormir, estava naturalmente elétrico, como uma enguia. Neste caso o choque era em si mesmo. Nem conseguia escrever, nem mais nada. Sempre ia ia ia ia ia ia ia mas nunca de fato concluia o proposto.
Achava tudo demorado demais. Ele também. Olhava a tela branca. Mudava de janela. Click. Entrada. Verifica e-mails. Click. Abre. Lixo. Click. Abre. Lixo. Click. Abre. Lê. Lixo. Lixo. Lixo. Click. Click. Lixo. Abre. Lixo. Click. Lê. Click. Lixo. Lixo. Lixo de espera, Lixo! Lixo! Lixo!Lixo!
Tentava de novo escrever o que não queria escrever. Estava bom do jeito que estava. Só que sentia que deveria. Era mentira, mas se sentia impelido. Um lixo! Lixo! Lixo! Sempre o mesmo lixo de sempre! Sempre! Sempre! Sempre um lixo!
* * *
[carlos henrique, 1.00am, ouvindo um grilo]
enviada por Carlos Henrique
03/03/2005 00:06
Novo layout! Novo ânimo! Nova vida! Novos contos! Novos tontos! Tudo novo!
Só enquanto durarem os estoques...
Corra que já estão acabando!!!
************************************************************************************
E em breve...
"PROJETOS PARA O NADA!!!" (ou coisa que o valha...)
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dôuze!
Comprou doze pastéis! Pronto!
Por doze vezes desistira de comprar os pastéis, então agora comprou uma dúzia, só para provar para si que apesar de não tê-los comprado antes era plenamente capaz do feito comprando os doze de uma só vez!
Duas meias-dúzias! Um de goiabada, um de queijo, um de brigadeiro, um de palmito e todos os outros um de cada coisa.
Achou que teria sabores infinitos dozes para se deliciar por horas e horas. Comeria em ritmo lento para não interromper a degustação.
O óleo o deixava verde.
enviada por Carlos Henrique
02/03/2005 01:15
raiva
Quatro da manhã e estava ali, parado. Em frente a uma tela branca, idiota, sentado desconfortavelmente naquela cadeira suja, ouvindo música irritante e alta, a mesma há um bom tempo. Com sono, achando que precisava tomar banho e com preguiça de tirar os óculos.
Acordaria como na manhã anterior a esta madrugada: em cima da cama desarrumada, à hora do almoço. Com a luz acesa, barulho da mesma música de sempre, computador ligado, mensagens piscando. Mal humorado, com hálito de ressaca sem beber e olhos insistentemente fechados punia seu desleixo. Olhava-se no espelho, horrível. Culpa sua. Culpa. Esse era o lacre na tampa.
Ficaria ali por mais um tempo. Ainda quatro da madrugada anterior ao sono. Não conseguia mais dormir, estava naturalmente elétrico, como uma enguia. Neste caso o choque era em si mesmo. Nem conseguia escrever, nem mais nada. Sempre ia ia ia ia ia ia ia mas nunca de fato concluia o proposto.
Achava tudo demorado demais. Ele também. Olhava a tela branca. Mudava de janela. Click. Entrada. Verifica e-mails. Click. Abre. Lixo. Click. Abre. Lixo. Click. Abre. Lê. Lixo. Lixo. Lixo. Click. Click. Lixo. Abre. Lixo. Click. Lê. Click. Lixo. Lixo. Lixo de espera, Lixo! Lixo! Lixo!Lixo!
Tentava de novo escrever o que não queria escrever. Estava bom do jeito que estava. Só que sentia que deveria. Era mentira, mas se sentia impelido. Um lixo! Lixo! Lixo! Sempre o mesmo lixo de sempre! Sempre! Sempre! Sempre um lixo!
enviada por Carlos Henrique
21/02/2005 16:39
Não, não tem tempo de comentar não!!! Com a incrível cifra (safra?,
entrecifra?, entressifra? eita!!!) de mais de uma visita diária, em 50
anos este blógue será um sucesso!!! De público, porque a crítica
continua nebulosa! A crítica é a auto!
Chega de dizer Bezerra! Eu achei esse negócio aqui:
http://www.catarro.blogspot.com/
O sujeito é engraçado!
E você? É engraçado também, palhaço?
Nem todo palhaço é engraçado! Palhaço!
Brincadeira! Nem todo palhaço sem graça deixa de se divertir!
Fui!
(contos? depois eu conto!)
enviada por Carlos Henrique
14/02/2005 18:52
para quedas
Cambaleava, não tinha o que fazer, dormia de pára-quedas.
Acordara. Cedo, só para que a queda ocorresse em desaceleração sutil. Suave. Desfrutaria o fim de salto. Ou fim de queda, pois o salto era o início da queda. Ou a queda o fim do salto?
Não sabia mais onde estava. Se extremamente dentro de si por continuar convivendo com os personagens de seu último sonho ou se extremamente fora de si por continuar convivendo com os personagens de seu último sonho.
Em trânsito, percebia o fora pela sombra projetada dentro e o dentro pela sombra projetada fora. Lançamentos cruzados que compunham o que ele era.
Paredes de concreto, tetos de concreto, pilares de concreto, janelas de concreto, vidros de concreto, portas de concreto, jardins de concreto, famintos de concreto, concertos de concreto, cheiros e nuvens de concreto. Nunca sabia onde estava e se já passara e tocara o concreto de concreto.
Os palhaços sim, sabia, eram de concreto. Aliás, para eles era fácil: usavam fantasia de concreto!
Gostava de algodão doce e ventos em ufes no rosto. Temia leões e tigres rugindo para disfarçar o medo. Derresto, a única certeza que tinha era quase nenhuma mais a de que o concreto era de mentira boba de criança.
Viveria de ilusões e palhaçadas.
enviada por Carlos Henrique
03/02/2005 23:43
vai vai vai vai
Estava atrasado. Ficava mastigando mastigando mastigando papel o tempo todo, e se atrasava. O gosto era sempre o mesmo, mas depois que mastigava, que aquilo se enchia de cuspe, tirava cuidadosamente da boca e grudava aquilo num montinho de papel já mastigado e seco. Faria uma casa!
Dentro de sua casa, tudo parecia mastigado. Ou cuspido. Tudo estava fora dos armários, tudo espalhado, tudo fora do lugar, estava ficando louco com isso. Aparelhos ligados davam recados inúteis de que estava atrasado ou de uma existência mais aborrecida do que realmente era.
Via poesia na desordem, e aí nada mais tinha um lugar. Tudo pode ser tudo, e as coisas podem estar em qualquer lugar. Ordem é uma convenção! nunca pensara isto, mas é o que pensaria se pensasse, pois era isso que acabava de descobrir a cada instante de satisfação e angústia com a zona esparramada no carpete sujo de coisas espalhadas.
Espalhava-se pela vida e pelos afazeres e pelos não-fazeres. Sempre atrasado, e ficava mastigando, algumas vezes, letras com os olhos.
Por um dia apenas, sonhava ser normal, fazer as coisas como fazerm os outros, viver a vida com a simplicidade que proclamava, não se atrasar. Lembrou que um dia fizera estas coisas.
sombrero
Tinha olhos de bebê. Sorria como o sol de carinha desenhado por uma criança. Jogava o cabelo de vez em quando, colocava as mãos para trás, prestava atenção. Não conseguia esconder a intenção dissimulada.
Às vezes acordava branca, ficava amarela ao meio-dia, roxa no café-da-tarde, quando o céu se alaranjava, e dormia verde. A luz da lua impedia o sono até que as nuvens pretejassem sobre seu humor.
Travesseiro recheado de bolinhas macias e coloridas, caçava joaninhas em sonhos nebulosos. Montava quebra-cabeças vermelhos durante a noite, só de peças bem grandes. Daí surgiam composições de sangue.
Acordava cantando e de cara fechada. Tinha frio na barriga no começo do dia. Os olhos de bebê estavam inchados do sono. Comia papel higiênico porque fazia cócegas.
Flutuava para casa, para a escola, para o trabalho. Sempre quente e macia, como um sol de carinha menina.
vão
Sentia-se feliz, e tudo o que fizera parecia uma merda. Sentia prazer no que fazia e tudo era só uma produçãozinha ridícula e sem importância. Estava feliz anteontem, sem saber porquê. Parecia inpiração. Pôs-se a pintar. Jogara tempo, telas e tinta no lixo.
A felicidade jogava contra sua produção. Só conseguiria parir um trabalho se estivesse angustiado. Daí o mundo ficava uma bosta e seus olhos estariam afiados.
Cada passo doía profundamente em seus pulmões. Cada sorriso a que se forçava o obrigava a contrair os olhos até que os cílios obstruíssem a visão a ponto de criar um véu cinza através do qual veria menos.
Tinha a respiração curta. Queria vomitar, cuspir, arrebentar os vidros dos carros. O ouvido estava sensível ao barulho, não queria saber que existia, não queria ver outros humanos, não queria dar satisfações. Rejeitava obrigações, afazeres, compromissos e a possibilidade de usar drogas para fugir de tudo isso. Era um artista, e não queria também o estereótipo do artista melancólico.
Às vezes, sozinho, lambia a parede do quarto. Outras mordia o próprio braço. Em dias de calor, odiava a chuva. Adorava o clima frio. Comia hambúrgueres e pão com salada de agrião. Juntava os amigos porque não queria ficar com outros humanos. Ouvia porque não tinha o que dizer que o agradasse. Bebia a água morna do chuveiro e dormia no chão acarpetado, sem se secar.
enviada por Carlos Henrique
08/12/2004 02:38
negrito << space:pause | space:play >> negrito
itálico << :::parte final das 5::: >> itálico
Não há como limitarmos a Arquitetura à função, ao programa, pois não há realidade única que possa ser apresentada. A realidade é fruto de associações e mediada pelos sentidos, e toda intenção finalística passa a ser processo indeterminado. Alguém poderia imaginar que o discurso de progresso legitimaria Hitler? O ideal positivista não teria sido uma alucinação coletiva que depois comprovou a existência da realidade criada pela percepção?
Ao propor função, o Arquiteto pressupõe uma única realidade, que não existe além da percebida, e aí temos realidades, no plural. O que é a ficção, senão uma outra realidade? Aparalela[1] e absurda, pois o absurdo é aquilo que se distancia do que aprendemos a perceber. Alinhemos o absurdo ao óbvio. Convivemos, portanto, com ficções (realidades), e não com a realidade (única). Form follows function? No, form follows fiction!
Irreal é tentarmos acreditar numa única realidade. Basearmo-nos no real é entendermos que estamos convivendo com inúmeras realidades que são matéria-prima para que eu construa a minha realidade pessoal, e devolva dados para a construção das outras. Não há mais distinção entre real e virtual, apenas a ocorrência de atualizações em ordem aleatória e caótica.
Podemos entender, de modo simplificado, da seguinte maneira: o real é aquilo que percebemos enquanto realidade dos fatos (entenda bem: coisas são fatos). Virtual é a realidade na sua infinitude, na complexidade indeterminável e de possibilidades inimagináveis. Atualizar é passar do estado de potência, que é o mesmo estado em que se encontra a árvore que está virtualmente contida na semente, para o estado de fato perceptível. A árvore na semente é potência, que ao brotar se atualiza.
Se a realidade não pode ser controlada, é porque, tal como o tempo, o espaço não pode ser estático. Se a realidade não pode ser controlada, é porque o que é aparentemente estático é essencialmente dinâmico, e o determinável passa a ser jogo, indeterminado. Temos, em inglês, jogar = to play.
Architecture organizes space. (organizes = pause, na concepção tradicional, onde form follows function.)
Mas como entender o espaço como estático, se ele é fundido ao tempo, que é dinâmico? Ambos devem ter a mesma propriedade, ou seja, ou são dinâmicos, ou estáticos. Parar o tempo eu não posso; logo, o espaço é incondicionalmente dinâmico. Vejam o modelo abaixo:
space = pause
: : dado moderno : :
time = play
se space + time = spacetime, logo
pause + play = pause + play é ilógico.
(as grandezas não se fundem)
mas se ...
space = play
: : dado atual : :
time = play
space + time = spacetime
play + play = 2play
(as grandezas se fundem)
Fusão. É disto que trata Novak em seu conceito mending. Mending é solda, emendar, cicatrizar, fazer a perfeita fusão como em tramas ou fibras que se associam.
Desta fusão, surge outro conceito que é o de Arquitetura Líquida. Não é fazer paredes que escorram como água, mas primordialmente entendê-las como tal. Mais do que isto, inclusive, é entender a Arquitetura não mais entre concretudes inacessíveis, mas escorrendo através do real e do virtual, através do tempo-espaço, à deriva em tudo e pousada nas surpresas, nos processos e nos gestos. Arquitetura encontrada através do real e ficcional, das mentiras e verdades que se concretizam perceptíveis e constroem dados, informações, que contribuirão na construção do próximo dado do real, que ainda é potência, virtual, e está por se atualizar.
Entendendo Arquitetura como informação, a produção arquitetônica passa a ser produção de informação. Como gerarmos informação? Por associações.
Dados ficcionais atravessam a realidade, e não podemos descartar a Arquitetura enquanto constante geração de ficções alteradoras da realidade.
Quando possuíamos a afirmação form follows function, colocávamos que Architecture organizes space. Ao passarmos para o entendimento de que form follows fiction, na impossibilidade de determinação do que é real, temos portanto que Architecture plays space. Plays entendido nos mais diversos sentidos, como joga, brinca, toca, encena. E não apenas plays space, mas plays in space, at space, with space, without space, through space, on space, beyond space, and more.
Arquitetura em movimento, como o som em propagação. Na fusão das grandezas passamos à fusão dos meios. Arquimúsica.
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[1] Deleuze usa o termo aparalelo para referir-se àquilo que não é nem paralelo nem concorrente. Entendo que o a seja um prefixo muito próximo do trans utilizado neste texto e em outros de enfoque semelhante.
enviada por Carlos Henrique
06/12/2004 21:29
enviada por Carlos Henrique
30/11/2004 14:16
space:pause | space:play
: : : partes 02/05 a 03/05 : : :
Espaço estático em tempo dinâmico. Entretanto, Einstein apresenta no começo do século XX a Teoria da Relatividade, onde espaço e tempo estão fundidos e são interdependentes. Voltamos à grandeza original: velocidade. E os cubistas apresentam a preocupação de não mais fazer uma arte da representação estática, mas que seja dinâmica como o espaço apresentado pela física. Pintam-se não mais objetos e fatos no espaço, mas no espaço-tempo, ou seja, um mundo dinâmico.
Contudo, impulsionada pela necessidade de reconstrução de países devassados pela guerra, e preocupada com a péssima qualidade das habitações, a Arquitetura mantém o controle do espaço como meta, a fim de ordená-lo. Passa-se pelo método do destrinchamento funcional, a fim de programar o espaço para a função à qual servirá.
Um espaço estático, de controle e ordem. O tempo o percorre nas atividades que dele se servem. Um discurso de ordem, de conquistas para um homem superior que estava por vir. Precisamos progredir!, é o que diz o discurso Iluminista que se auto-legitima, ou seja, que dá voz de autoridade a si mesmo. Auschiwitz também clamava pelo progresso que não poderia ser contido, e utilizava meios mais terríveis.
O controle está fora de controle! Tempo-espaço, e não tempo & espaço. O espaço não pode ser contido, porque o tempo não pode ser contido. Se temos duas grandezas que na verdade são uma, logo suas condições não são duas, mas uma. Percebemos as distâncias quando as percorremos, e o tempo de uma viagem vai depender (também) da distância a percorrer.
Se o espaço é estático, ele não pode se vincular ao tempo. Temos então a lição de que o espaço é dinâmico, como o tempo. Perdemos os parâmetros controladores, e passamos a viver no caos. Não é sair da ordem, mas sair de uma simulação de ordem, simplificada e irreal, e que só é aceita como ordem pela simplificação da própria percepção, que é também educada para entender a complexidade como desordem.
Entramos para o entendimento da verdadeira ordem, descontrolada e caótica, um jogo de probabilidades, possibilidades e associações randômicas.
A realidade se altera. Do entendimento do controle e da meta, do fim prático e ideal, do cartesiano e polido, do que é perfeito e simplificado em três planos espaciais, passamos ao descontrole e incerteza, ao aleatório e rugoso, àquilo que é perfeito pela complexidade que se apresenta na manutenção de um equilíbrio constante, dependente de metamorfose, transmutação e transição. Passamos a viver num espaço tão dinâmico quanto o tempo, ou seja, a viver no epaço-tempo. Não que já não vivêssemos nele, mas havíamos esquecido e voltamos a acessá-lo.
Ao perdermos o foco, passamos a viver numa realidade difusa. A Teoria da Incerteza de Heisemberg nos apresenta alguns dados interessantes. Um deles é que nada pode ser observado sem sofrer influência do observador. Outro é a impossibilidade de determinar a trajetória das partículas subatômicas, que obedecem a uma ordem caótica e aleatória. A saída são experimentos que consideram mais de uma realidade possível e estas simultâneas, como o teorema do gato onde
um gato está dentro de uma caixa fechada com uma isca envenenada. Como podemos saber se o gato está vivo ou morto sem abrir a caixa?
Parece algo infantil e inútil, mas é uma das inúmeras teorias físicas que só são acessíveis por experimentos mentais, e não laboratoriais. Neste exercício, temos como solução encarar uma realidade onde o gato é considerado vivo e morto simultaneamente. Como o trajeto de partículas subatômicas: elas estão e não estão em determinado ponto.
Se nada pode ser observado sem a influência do observador, o que podemos dizer da realidade? Poderia ela ser entendida como algo único e padronizável, sem sofrer influência daqueles que a percebem? Ou seria a realidade algo inacessível a partir do momento em que é formada por interpretações do concreto? Quem pode ver a realidade que eu vejo? As perguntas já são as respostas.
Vivemos nos vazios. O espaço é vazio. Os cheios são vazios, pois até eles são feitos mais de vazios que de cheios. A ilusão de solidez é criada pela vibração de partículas em alta frequência e associada às relações de forças que se estabelecem. Os olhos continuamente captam mensagens de luz que nosso cérebro processa por meio de impulsos, ou seja, na forma de frames elétricos.
Saídos duma relação onde form follows function, agora form follows fiction. Forma que não é mais correspondente espacial do reducionismo de uma vida pragmática onde temos tarefas que devem ser cumpridas. Uma forma no espaço não pode ser mais entendida como estática, mas dinâmica. Razão: espaço-tempo.
A função perde a razão, assim como produzir perde a razão. Passamos da sociedade de produção para a sociedade de consumo.
Cai a função da realidade plana e surge a ficção das múltiplas realidades que se entrelaçam criando conexões entre aqueles que transitam no tempo e no espaço, ou que em si são espaço e tempo fluindo.
O balé simula a vida. Espaços se formam pela presença material no instante congelado que tende a zero e se desfazem no instante seguinte pelo trânsito dos corpos e suas partes, pelas luzes que se apagam desfazendo o cenário e a ilusão dos cheios.
enviada por Carlos Henrique
29/11/2004 23:51
space:pause | space:play
: : : parte 01/05 : : :
Spacetime, timespace, como queira. Inglês, português, portuglês. Este texto segue confundindo as duas línguas para esclarecer as duas grandezas (na verdade uma) inerentes à Arquitetura e por muito tempo deixadas de lado. Quais duas? Tempo e espaço, duas, ou velocidade, uma.
Voltemos ao Movimento Moderno e algumas definições clássicas e amigas criadas neste período. Uma das afirmações é que forma segue função (form follows function); outra é que Arquitetura é a Arte de organizar os espaços.
Ordem, linearidade de método. Foi assim que se desenvolveu e surgiu uma produção revolucionária no século XX. Amparado em ideais industriais e reforçado por crises pós-guerra, principalmente na Europa, o discurso Moderno fez do ideal Fordista a solução para o desenvolvimento de uma Arquitetura sem ornamentos, tanto em sua materialidade como na vivência que ela envolvia. Buscaram o necessário, o enxuto, o prático, o barato. Com um homem tido como máquina de viver, desenvolveram a máquina de morar, a máquina de circular, a máquina de trabalhar, a máquina do lazer. Tudo com sua devida finalidade. Afinal, havia por trás disso um projeto de homem modelo, ideal, cosmopolita e produtivo. Eles já sabiam onde queriam chegar, e buscavam percorrer o trajeto para tal.
Vislumbrou-se um novo homem, que precisava ser educado. A indústria representava, naquele momento, a confluência de um ideal gestado no Iluminismo. O controle da produção dos bens é tranportado para a produção do espaço, mas com o intuito de produzir uma nova humanidade. Produção em escala industrial, que produziria a condição na qual viveria o novo homem. Era a concretização, em fatos, no século XX, de pensamentos gestados no século XIX, no período em que se consolida o capitalismo de produção.
Vivemos as conseqüências disso. Nossas escolas são constituídas de carteiras em alinhamento militar, visando o saber como foco, mas a partir do professor iluminado instrutor dos alumnos (a=sem, lumno=luz). Temos o aprendizado dividido em séries, que aumentam em grau de dificuldade e complexidade. Ao final, temos habilitado (ou adestrado...) mais um cidadão.
Para controlar, temos de padronizar, reduzir, aparar o desnecessário e o supérfulo, criar um método a ser seguido. O controle da humanidade passa pelo controle do espaço, e com mais clareza do que em outras eras, este espaço é entendido como estático.
A física de Newton havia influenciado o desenvolvimento que culminou na industrialização, pois como mais um método para cartesianizar o mundo, simplificou os dados do real com a finalidade de que este servisse à humanidade.
enviada por Carlos Henrique
17/11/2004 21:57
Cumprindo sua FUNÇÃO SOCIAL, para que as críticas aos meus estudos de Lyotard não tapem o que este singelo site tem a oferecer através de toda sua pós-pós-modernidade (e não através do chavão pós-modernismo=fragmento), venho por meio desta mensagem estar tentando estar informando que sexta-feira os orientandos do Dorival vão estar apresentando o que eles estão desenvolvendo em seus TFG's para podermos estar discutindo e encaminhando os projetos. Para isso, todos precisam estar estando lá.Repetindo: pré-banca sexta-feira, a partir das 9 da madrugada.
E não se esqueçam que este site cumpre com sua função social. Afinal, função social também é POP (só que disfarçadamente...)
enviada por Carlos Henrique
16/11/2004 00:21
COMO FAZER UM BOLO DE CHOCOLATE SEM SUJAR A LOUÇA?
http://ubbibr.fotolog.net/_clouds_/
http://www.a-matter.de/digital-real/eng/iedefault.htm
http://www.e-cloud9.com/index1.html
VOCÊ COMEU TUDO? NÃO? POIS TRATE DE RAPAR O PRATO!
QUANTAS CONSCIÊNCIAS CABEM NUMA EXISTÊNCIA?
DE QUE ESTÁVAMOS FALANDO MESMO? AH, SIM, PATOS!
SE UM SER HUMANO JOGASSE BOLA O DIA INTEIRO ELE FICARIA TÃO CANSADO QUE DORMIRIA.
MUITO ESTRANHO TUDO ISSO. MAS NÃO SE PREOCUPE, COMA SEU SUCRILHOS.
PASSAR BEM.
enviada por Carlos Henrique
12/11/2004 20:09
(Os nomes foram omitidos. O fato realmente ocorreu. Hoje o blog será usado pra divulgar a covardia do poder.)
CONVERSA NO MSN SEXTA FEIRA, 12 DE NOVEMBRO, +-17:00 h
AMIGO 01 diz:
CARA...TIVE UMA NOITE FODA....
AMIGO 02 diz:
é? pq?
AMIGO 01 diz:
TEVE UMA MANIFESTAÇAO DE ESTUDANTES DA PUC BEM NO CRUZAMENTO ENTRE A AVENIDA SUMARÉ E A RUA DO MEU PRÉDIO
AMIGO 01 diz:
OS ESTUDANTES BLOQUEARAM A AVENIDA...MAS ERAM POUCOS ....UNS 70 NO MÁXIMO, CHUTANDO ALTO
AMIGO 01 diz:
O PROBLEMA É QUE MANDARAAM DE CARA A TROPA DE CHOQUE PRA LÁ....
AMIGO 02 diz:
que merda
AMIGO 01 diz:
E OS CARAS DESCERAM O CACETE NOS ESTUDANTES....MAS BATERAM ALUCINADAMENTE....
AMIGO 02 diz:
nossa!
AMIGO 01 diz:
TINHA MUITA GENTE DO MEU PRÉDIO ASSISTINDO....QDO O PESSOAL VIU QUE A PM ESTAVA EXAGERANDO, COMEÇOU A PROTESTAR...
AMIGO 02 diz:
e sobrou
AMIGO 01 diz:
ASSISTINDO DE DENTRO DO APARTAMENTO...INCLUSIVE EU, A TIXA E MINHA TIA,MÃE DO BRUNO
AMIGO 01 diz:
ATÉ QUE UNS 4 PM PEGARAM UM ESTUDANTE BEM NA FRENTE DO NOSSO PRE'DIO...E COMEÇRAM A BATER MUITO NELE....O PESSOAL DO PRÉDIO COMEÇOUA GRITAR PRA ELES SOLTAREM O CARA, QUE IA MATAR...COISA E TAL....E NÓS, DO NOSSO AP TB...
AMIGO 02 diz:
e aí? o cara soltou?
AMIGO 01 diz:
ATÉ QUE UMA HORA, EU ESCUTO UM GRITO DA TIXA, ASSUSTADA.....E QDO EU OLHO PRA BAIXO, TINHA UM CARA DA TROPA DE CHOQUE APONTANDO UMA ESCOPETA PRA MIM...
AMIGO 02 diz:
vixe!
AMIGO 01 diz:
FOI O TEMPO DE EU DESVIAR -ME PARA A LATERAL DA JANELA...PRATICAMENTE VIRAR O CORPO....DAÍ NÃO LEMBRO DE NADA DIREITO...SÓ LEMBRO DO LUSTRE ESTOURANDO....DA TIXA E DA MINHA TIA GRITANDO....
AMIGO 02 diz:
credo! o cara atirou?!
AMIGO 02 diz:
que absurdo!
AMIGO 01 diz:
O PM DEU TRÊS TIROS PRA DENTRO DO MEU APARTAMENTO
AMIGO 01 diz:
ERAM BALAS DE BORRACHA..
AMIGO 02 diz:
mesmo assim, caramba!
AMIGO 02 diz:
se pega na cara, mata!
AMIGO 02 diz:
tem que ir na corregedoria, denunciar um filho da puta desses!
AMIGO 01 diz:
O TIRO FOI TÃO FORTE QUE FEZ UM FURO NA CORTINA, BEM NO LUGAR ONDE EU ESTAVA......
AMIGO 01 diz:
AS BALAS RICOCHETEARAM DENTRO DO MEU AP
AMIGO 01 diz:
DEPOIS QUE PASSOU EU LIGUEI NO 190 PRA ME INFORMAR
AMIGO 01 diz:
DO QUE FAZER...
AMIGO 02 diz:
e aí?
AMIGO 01 diz:
NO FINAL, FUI NO 23´DP...QUE FICA PERTO DE CASA...CHEGUEI LÁ E TINHA ESTUDANTE SENDO PRESO...ESTUDANTE SANGRANDO....PROFESSOR SANGRANDO.....UM ABSURDO...
AMIGO 01 diz:
ISSO AINDA ONTEM A NOITE.....
AMIGO 02 diz:
e aí?
AMIGO 01 diz:
LIGUEI P O BRUNO E ELE TB FOI PRA LÁ...ESTAVA NA CASA DE UMA NAMORADINHA E NÃO TINHA VISTO O OCORRIDO....
AMIGO 02 diz:
Putz... e não saiu nada em jornal nenhum
AMIGO 01 diz:
EU TB LIGUEI PRA UMAS REDES DE TV.....E OS CARAS FORAM PRA LÁ.....UNS REPORTERES DA FOLHA TB....
AMIGO 01 diz:
SAIU NA FOLHA ONLINE E NO ESTADAO....
AMIGO 02 diz:
deve sair amanhã, então
AMIGO 02 diz:
não vi
AMIGO 02 diz:
tô com a folha online aberta
AMIGO 01 diz:
É QUE FOI TARDE....QDO EU TELEFONEI PRA ESSES CARAS DA IMPRENSA JÁ ERAM MAIS DE 12:00 HS
AMIGO 01 diz:
VEJA EM COTIDIANO..
AMIGO 01 diz:
NO ESTADAO TB..
AMIGO 01 diz:
DAÍ O POLICIAL QUE ATIROU DISSE QUE ESTAVA SE DEFENDENDE PQ EU HAVIA JOGADO COISAS NELE...ELE FALOU DE UMA LATE DE LEITECONDENSADO....ABSURDO....ABSURDO CARA
AMIGO 02 diz:
mentiroso da porra! Fala pra ele mostrar, então!
AMIGO 01 diz:
HJ DE MANHÃ FIZ O BO E CHAMEI A PERÍCIA EM CASA....ATÉ OS CARAS DA PERÍCIA SE ASSUSTARAM COM A VIOLÊNCIA
AMIGO 01 diz:
AGORA, POR ENQUANTO, SEI QUE OU ENTRAR COM UMA AÇÃO CONTRA O ESTADO...POR DANOS FÍSICOS E MORAIS......MAS NÃO SEI SE VOU ENTRAR NA CORREGEDORIA ESPECIFICAMENTE CONTRA O POLICIAL QUE ATIROU....PQ O CARA SABE O MEU APARTAMENTO, MEU NOME...TUDO....ACHO ARRISCADO...
AMIGO 02 diz:
é foda.
AMIGO 02 diz:
mas ação contra o estado, devia sim.
AMIGO 01 diz:
ISSO COM CERTEZA...
AMIGO 02 diz:
tô passando a nossa conversa pra uma amiga minha jornalista da UOL
AMIGO 02 diz:
vamos ver se agita
AMIGO 01 diz:
EU DEI ENTREVISTA PRA BANDEIRANTES, REDE TV, FOLHA E ESTADÃO....MAS NÃO ME IDENTIFIQUEI...
AMIGO 02 diz:
tá. Ela não te conhece.
AMIGO 02 diz:
tirei seu nome, tb
AMIGO 01 diz:
NA REDE TV OS CARAS ME FILMARAM DE COSTAS
AMIGO 02 diz:
sério? queria ver isso
AMIGO 01 diz:
E PEDI PRA BORRAREM O ROSTO E COLOCAREM VOZ DE PATO.......
AMIGO 02 diz:
Não acredito!
AMIGO 02 diz:
quero ver isso!
AMIGO 01 diz:
APRECE QUE SAIU NO JORNAL DO MEIO-DIA....UM AMIGO MEU ME LIGOU CONTANDO....AGORA VAI SAIR NO JORNAL DAS 19:00
AMIGO 01 diz:
PARECE
AMIGO 02 diz:
nossa
AMIGO 02 diz:
que absurdo
AMIGO 01 diz:
E O PIOR E QUE TINHA GENTE FILMANDO E APARECEU O POLICIAL FAZENDO MIRA E ATIRANDO NO MEU AP
AMIGO 02 diz:
putz... se fodeu, então
AMIGO 02 diz:
não tem como!
AMIGO 01 diz:
AGORA HÁ POUCO ME LIGOU UMA REPORTER DA FOLHA PEDINDO PRA EU CONTAR A HISTÓRIA NOVAMENTE....EU FALEI QUE ACHEI A NOTA QUE ELES COLOCARM NA NET RIDÍCULA, ABSURDA E ELA ME PEDIU DESCULPAS DIZENDO QUE FOI O MÁXIMO QUE ELES CONSEGUIRAM, DEIDO AO HORÁRIO....
AMIGO 02 diz:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u101776.shtml
AMIGO 02 diz:
essa?
AMIGO 01 diz:
ESSA MESMA....200 UNIVERSITÁRIOS....SE TINHA 70 ERA MUITO....
AMIGO 01 diz:
E NÃO FALOU NADA DA VIOLÊNCIA DA PM....E PORQUÊ CHAMAR TROPA DE CHOQUE PRA CONTER MANIFESTAÇAO DE ESTUDANTE QUE INTERROMPEU UMA PISTA DE AVENIDA ?
AMIGO 01 diz:
O MÁXIMO DE ABUSO QUE OS ESTUDANTES TIVERAM FOI COLOCAR FOGO EM PNEU P/ BLOQUEAR A AVENIDA....ISSO SIM EU ACHEI FODA....MAS FOI SÓ
AMIGO 02 diz:
absurdo, absurdo
AMIGO 01 diz:
DEPOIS ELES FICARAM CONATNDO HINOS CONTRA ESSA TAL REFORMA....
AMIGO 01 diz:
CANTANDO
AMIGO 02 diz:
bom, deve ter sido algum gênio da polícia... ê, seu governador! Vota no PSDB, povinho!
AMIGO 01 diz:
QDO A TROPA DE CHOQUE CHEGOU OS ESTUDANTES CORRERAM.....E A TROPA FOI ATRÁS....OS CARAS PARECIAM LOCOS.....TINHA ESTUDANTE CORRENDO EM DIREÇÃO À PUC E PM CORRENDO ATRÁS ATIRANDO
AMIGO 02 diz:
são uns animais
AMIGO 01 diz:
TEVE UM CARA QUE ELES BATERAM TANTO , MAS TANTO, QUE ALGUNS ESTUDANTES CORRERAM PRA CIMA DA TROPA PRA SOLTAR O CARA....O CARA CONSEGUIU SAIR CORRENDO, MAS TAVA TÃO ZOADO...ACHO QUE O JOELHO....QUE NÃO CONSEGUIA CORRER...ELE CORRIA E CAIA...
AMIGO 02 diz:
puta que pariu
AMIGO 02 diz:
e vc, pra dormir, depois? deve estar quebrado, hoje!
AMIGO 02 diz:
Pelo menos tá vivo
AMIGO 01 diz:
E A PM AINDA FOI ATRÁS DESSE CARA, UNS 5 PMS DA TROPA DE CHOQUE, COM ESCUDO, CACETETE , CAPACETE.....
AMIGO 02 diz:
nossa.
AMIGO 01 diz:
FOI ESSE QUE ELES PEGARAM BEM NA FRENTE DO NOSSO PRÉDIO...FOI QUANDO OS MORADORES COMEÇARAM A GRITAR PRA SOLTAREM....
AMIGO 02 diz:
porra, meu, que foda
AMIGO 01 diz:
QUDO EU LEMBRO DA TIXA GRITANDO EU NÃO CONSIGO FICAR SEM CHORAR....É MUITO FODA CARA....
AMIGO 02 diz:
puta merada
AMIGO 01 diz:
ISSO TUDO PQ ERA EM PERDIZES.......BAIRRO RESIDENCIAL.....SE FOSSE EM ALGUMA FAVELA, OU UM LUGAR MAIS PERIGOSO PARA UM ATUAÇÃO POLICIAL, VC ATÉ PODE ENTENDER DE CHAMAREM UMA TROPA DE CHOQUE E O MOTIVO DE TAMANHA FORÇA EMPREGADA....MAS EM PERDIZES....PORQUÊ ISSO ?
AMIGO 02 diz:
um absurdo. é foda
AMIGO 02 diz:
não dá pra entender
AMIGO 01 diz:
PRA DISPERSAR UM BANDO DE ESTUDANTE DA PUC......
AMIGO 01 diz:
PRECISAVA DE TANTO ?
AMIGO 02 diz:
foda. os negos são totalmente despreparados
AMIGO 02 diz:
comandados por algum imbecil
AMIGO 01 diz:
E QUAL O MOTIVO DE UM PROFISSIONAL, SUPOSTAMENTE TREINADO, FAZER MIRA - NÃO FOI UM TIRO ACIDENTAL, O CARA FEZ MIRA MESMO - E ATIRAR DENTRO DO APARTAMENTO DE ALGUÉM QUE NÃO TINHA NADA A VER COM O PROTESTO.....,
AMIGO 02 diz:
pois é, isso é o mais absurdo... falta de controle total
AMIGO 01 diz:
QUE É MORADOR DO BAIRRO E APENAS SE INDIGNOU, ASSIM COMO OUTROS MORADORES QUE ESTAVAM ASSISTINDO AQUILO
AMIGO 01 diz:
EU ESTOU PASMO CARA...PASMO.....
enviada por Carlos Henrique
06/11/2004 00:44
burro
Tornara-se enfim um artista nojento. Tossia alto, vivia no meio do lixo. Dormia entre as putas e as pulgas, e as baratas vinham lamber sua língua nas noites de insônia em que muito pensava em pesadelos e pouco se deixava levar pelo sonho da realidade.
Comia caviar, às vezes. Lia Dostoievski sem entender. Escutava João Gilberto e adorava aquela bosta. Sabia, sem perceber, que era mesmo o culpado disso tudo e procurava razões. Não havia.
Há 40 dias não via seu amor, e mesmo assim pensava que a reclusão era um manjar. Desfrutava como podia, só. Isto fazia, esperando terminar o próximo mês e a próxima obra e o lixo ir embora antes que se afogasse nele.
Comia ratos, e camundongos. Dormia entre as putas e as pulgas. Via o sol e as estrelas, e admirava a forma das nuvens baixas que choviam rápida e constantemente. De dentro pra fora.
Coberto com um lençol sujo, grudava o travesseiro ao próprio corpo que fedia. Vestido, queria apenas um último afago, até que o próximo viesse. Esperava por soluções que estavam por aparecer do nada, ligar num domingo chato ou passar para um café. As soluções estavam muito ocupadas.
Soluçava e escorriam lástimas por seu rosto, vindas de dentro dos olhos que destilavam o que neles entrava. Ciscos grandes demais para a consciência e a sobriedade. Por isso é que muito pensava nos pesadelos e pouco se deixava levar pelo sonho da realidade. As putas e as pulgas no fundo eram uma só, e eram de toda a gentileza.
Não sabia porque não queria saber o que já entendera em outros modos menos sutis. Apenas oscilava de humor, e isto lhe bastava.
enviada por Carlos Henrique
29/10/2004 23:17
Estou vestido na minha cidade e depois do chuveiros irei ao encontro,
andarei pela rua de calçadas altas, uma rua que existe na minha cidade
e que sai para a o campo, me afasta do canal e dos bondes
por suas toscas calçadas de tijolos gastos e suas sebes,
seus encontros hostis, seus cavalos fantasmas e seu cheiro de desgraça.
Então andarei pela minha cidade e entrarei no hotel
ou do hotel irei para a zona das privadas ressumantes de urina e de excremento,
ou estarei contigo, amor meu, porque contigo desci alguma vez para a minha cidade
e num bonde espesso de passageiros estranhos sem figura compreendi
que a abominação se aproximava, que ia acontecer o Cão e quis
aconchegar-te a mim, te proteger do espanto,
mas tantos corpos nos separavam, e quando te obrigavam a descer entre um confuso movimento
não pude te seguir, lutei com a goma insidiosa de lapelas e caras,
com um guarda imapssível e a velocidade de campainhas,
até arrancar numa esquina e pular e estar só numa praça ao crepúsculo
e saber que gritavas e gritavas perdida na minha cidade, tão perto e inencontrável,
mas sempre perdida em minha cidade, separados para sempre na minha cidade onde
não haveria hotéis para ti nem elevadores nem chuveiros, um horror de estar sozinha enquanto alguém
se aproximaria sem falar para te encostar um dedo pálido na boca.
Ou a variante, estar olhando minha cidade da borda
do navio sem mastros que cruza o canal, um silêncio de aranhas
e um suspenso deslizar para aquele rumo que não alcançaremos
porque em algum momento já não há mais barco, tudo é plataforma e trens errados,
as malas perdidas, os inúmeros trilhos
e os trens imóveis que subitamente se deslocam e já não é a plataforma,
é preciso atravessar para encontrar o trem e as malas se perderam
e ninguém sabe de nada, tudo é cheiro de pixe nos uniformes de guardas impassíveis
até subir naquele vagão que vai sair, e percorrer um trem porque em algum lugar é preciso encontrar-se,
sem que se saiba quem, o encontro era com alguém que não se sabe e as malas perderam
e tu, de quando em quando, também estás na estação mas teu trem
é um outro trem, teu Cão é outro Cão, não nos encontraremos, amor meu,
te perderei outra vez no bonde ou no trem, de cuecas correrei
por entre uma gente apinhada e dormindo nos compartimentos onde uma luz roxa
cega os panos empoeirados, as cortinas que escondem a minha cidade.
62 - Modelo para Armar, Julio Cortázar
enviada por Carlos Henrique
19/10/2004 01:37
Não interessa a unidade. Ela é apenas uma particula muito pequena da existência. A unidade nos limita a um fragmento do que poderia ser se não tivéssemos limites. Ela nos limita a apenas uma parte do que seria o todo. O todo? É o universo, e as relações que estabeleço entre coisas antes distintas, entre unidades levadas a passear por mundos nelas contidos, mas aprisionados pelo código dos limites. Eu não quero a unidade. Eu quero a arte, o infinito.
enviada por Carlos Henrique
17/10/2004 00:33
ponto linha plano
Melhor do que o silêncio só João, dizem versos de Caetano em Pra ninguém. Melhor do que o silêncio, melhor que a polifonia. O silêncio enquanto suspensão e, neste pré-orgasmo, surge um som, um desafino de notas confusas, um tom. No silêncio um grito, nele um gesto e um raspar de diferentes tecidos sons. No silêncio nota-se, tal como na caixa oca do violão extendem-se sons produzidos tensa e intensamente.
No silêncio a intensidade aparece, e daí surge a percepção do puro, o ensejo do em si que vibra diante de nós e sem entender sabemos. A poesia que ao ir embora passa a poder ser transmitida por passarmos a sê-la. E nós, no silêncio, soamos.
Como estrelas, em contínua instabilidade, em contínua tensão de gravidades no vácuo. As partículas que nos constituem são tão pequenas que nossa solidez é uma impressão do verdadeiro vazio que há entre uma e outra. A tensão e a troca de forças intensas nos sustentam. Vibração física em constante transmissão estabilizando um sistema instável. É o que nos permite existirmos.
Cidades invisíveis, mas sonoras aos olhos como a injusta Berenice de Italo Calvino, que contém o germe da mais justa de todas as províncias: Berenice. A mais justa tem por falta grave julgar-se a mais justa. Daí, praticar a injustiça passa a ser uma obrigação quando necessária para que se mantenha a estabelecida justiça da qual tão bem falam seus habitantes. No silêncio, o som.
Na suspensão infeliz em que trafegam muitos em Raíssa há a criança que ri porque um cão pulou para pegar um pedaço de polenta que cai do prato que a moça levanta para oferecer ao vendedor de sombrinhas que a lisonjeia e um pouco pede, este homem contente que é, por ter vendido uma bela sombrinha que mais contente deixara a dama compradora ao pavonear-se na corrida de cavalos para o corredor que para ela sorri montado num cavalo ainda mais alegre ao correr olhando a perdiz que ao alto voa, depois de liberta por um pintor satisfeito em tê-la em detalhes pintada sobre uma página que dizia que em Raíssa, cidade triste, havia um fio que surgia e desaparecia onde habita a cidade feliz. Penso eu, guardada pelo silêncio necessário para acessá-la.
A linguagem escorre, como a arquitetura é líquida sem percebermos. É uma ilusão de matéria viscosa seca e enrijecida aos moldes de pedra, que o tempo se encarrega de mover, para baixo ou para longe. Perecer é uma das ilusões do continuum Ser, onde entendemos por Estar, seus estados. Estar está para o limite como Ser para o momento no infinito. E como Ser se dobra no ponto, no instante, Estar se dobra sobre si mesmo e muda de estado através do Ser.
Para o alto e avante! Vemos nuvens. Imensas fantasias possíveis desformes ou transformes (pós-transformers), de enganosa solidez em sua líquida consistência. Poesia sem ser dita, inacessível, em silenciosa dança frouxa e tensa, cuja intensidade faz chover. A chuva às vezes pára na garganta, como a realidade impossível senão por nossos olhos tatos ouvidos olfativo-palatares e, além deles e sem deixá-los saber sem entender.
Surge a cola necessária para que a dança aconteça fora do corpo e se extenda para através. Objetos físicos tensos vazios vibram mais em mensagens que em ondas, ou pulsações por minuto. O real construído de pequenas informações grudadas pelo desejo e, conseqüentemente, pela fantasia. Real construído da impossibilidade de se conter e não comunicar uma situação interna fruto das regras do jogo. Real possível ou ainda por vir não interessa é feito de ficção.
Ficção como a razão, a função e a realidade. Necessidades criadas, frutos de desejos de Deus e do diabo colocadas mais para dizerem que para serem. Ler sendo. Em silêncio, na suspensão do vento que levanta a espuma espalhada e o papel picado. No silêncio o som surge explicando que ele É. Fantasia, a razão surge e sussurra que é impossível acessar o que É e perceber a realidade concreta, e que devemos mesmo assim continuar buscando o que nunca alcançaremos.
Sentimos o perfume da moça depois que ela passa. Quase nunca o vento vem de encontro a nós e, quando vem, não estamos preparados. Percebemos, depois, que o perfume chegara antes. E nem sentimos.
Forma segue função, diz o velho ferramenteiro. Função que nada mais é que fantasia e desejo de superar a limitação imposta. Função enquanto ficção disfarçada. Passamos a entender o que apenas sabíamos, na afirmação form follows fiction de Marcos Novak. Não é a fantasia função? Não é a experiência função? Não é existir função da parte junto ao todo, mesmo quando peça indesejada? Desvinculemos da palavra função o simbolismo que a aproxima do pensamento industrial. Só o desejo torna possível que haja o design da realidade.
A parte e o todo? Mas onde acaba um e começa o outro? Perdemos limites (que nunca tivemos). Os limites são a relação que se faz reduzida, isto é, reducionismos, para entendermos o que é integral. O jogo perdeu as regras, e sua condição de ordem agora é apenas jogar. A arquitetura, que se preocupara em organizar os espaços em tempo simuladamente estático, e de simulada ordem, passa a jogar em sistema sincero: caótico e descontínuo. A matéria da arquitetura não é mais o espaço, mas o espaço-tempo. Pela não separação das grandezas, sua única grandeza é a velocidade. Dança como arquitetura rápida e arquitetura como dança lenta. Na aceleração da arquitetura e desaceleração da dança, ambas se encontram. Perdemos a noção de limite e percebemos o que é integral. O Uno de Deleuze.
Só sabemos do silêncio depois do som, e vice-versa. Muitos São sem saberem. Através e portanto além dos sentidos, alguns sabem e entendem. Sabendo primeiro, para depois entender. E ignorando estas diferenças que são apenas duas das n formas de Ser, o desejo é o grande designer do jogo, e o silêncio o caminho para o som de João.
enviada por Carlos Henrique
10/10/2004 21:47
mundo
Contos eram bons e agradáveis. Sorriam sorriam o tempo todo para toda a gente manifesta em pessoas que diante deles se apresentavam. Bom dia, como está bonita! era uma frase corrente entre eles. Olá, como vai a vida! era outra das tantas formas aprendidas para serem gentis.
Mudo um dia um conto ficou, e passaram a enxergá-lo de maneira diferente. Ele também o mesmo passou a fazer com relação aos outros, que agora sim eram contos em sua visão distorcida e tonturante.
Esquecido já de como era ser, tonto, ficou mudo, e depois de muito ver, viu que diferente via vivia e era visto na vida daqueles em quem contos via.
Soprou estrelas cadentes nuvens. Às vezes elas ainda caíam choviam, mas sem acabar.
enviada por Carlos Henrique
02/10/2004 17:03
Infantilmente profundo:
...estaria a cidade fora da cidade? estariam as coisas fora das coisas? estaria você no mundo ou o mundo em ti? ...
enviada por Carlos Henrique
01/10/2004 13:33
"O que antes eram centros agora são discos. Vetores centrífugos, de dispersão e de propagação esférica, como o som, estão agora multiplicados por toda parte. Colisões inevitáveis de conceitos e perceptos amplificam a dispersão que há na difração, tal como cada ponto de colisão torna-se um novo dado, uma nova contribuição para o ruído."
Marcos Novak
ºººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
Sofia? Te conheço? Não sei, mas obrigado pelo comentário, mesmo.
ºººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
enviada por Carlos Henrique
27/09/2004 02:55
por aqui
Via a fumaça envolta dos brancos contos tomando conta. Tonta, a fumaça, de ponta a ponta pairava, e escondia o brilho e a desgraça de infelizes contos que demoravam cada vez mais a aparecer.
De vez em quando ainda eram vistos, vagando por aí, quase mendigos felizes maltrapilhos e satisfeitos com a condição que se lhes impuseram. Mas passavam, ocupados em catar garrafas e vidros e latas e filhos em fartas doses de suor e angústia acumuladas após um dia inteiro de pedidos não remunerados. Pediam apenas por favor e com licença, mas ninguém sabia retribuir.
Urubus pairavam, e contos paravam de produzir atitudes engraçadinhas para começarem a ser maus sujeitos que distribuíam bondade e sorrisos contidos pelo mundo de Fanta afora. Queriam atenção.
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005 : : conduzidos para Não Sei
Para fugir de uma atuação paradigmática, precisamos primeiro destruir a existência de algo por inteiro. Todas as formas conhecidas devem ser abolidas.
Reinventemos o mundo! Porquê não? Se os nomes das coisas não são as coisas, para que criarmos variantes em cima de um modelo já saturado?
Pensemos da seguinte maneira: uma cadeira não precisa se parecer com uma cadeira. Tampouco deve servir para sentarmos. Da mesma forma, seguindo esta lógica do absurdo, a Arquitetura deixa de ter paredes para passar simplesmente a acontecer.
Num espetáculo de dança, existe um vazio a ser ocupado (ou não, como pausa dinâmica). Corpos ocupam lugar no espaço. O movimento ocupa o tempo no espaço. Corpos em movimento ocupam lugar no espaço-tempo.
Esta Arquitetura não é rígida, mas dinâmica. A cada instante, os corpos em movimento estabelecem um fluxo de significado entre si. Seus movimentos precisos criam, por meio da livre apropriação do vazio, Arquiteturas mutantes. Uma Arquitetura que se contrói e se dilui a cada instante, levemente conduzida através de si mesma à sua próxima conformação imprevista.
A ordem colocada a partir da libertação do caos.
Como a tinta que se deposita sobre uma tela. Pigmentos livres para se manifestarem a partir do espalhar numa superficie qualquer. Antes do quadro há o movimento. Da mente inquieta ao corpo. Do corpo ao pincel, dedos, espátula, turbina.
Qualquer obra pictórica traz contida, através da imagem resultante, a memória de um movimento que continuará acontecendo através do próximo espectador. O tempo no espaço gera a imagem cujo significado fluirá para modificar o tempo-espaço através de quem acessa a obra.
Quem seria o mensageiro?
(Este texto foi originalmente escrito para descrever a idéia da Arquitetura contida na produção das outras artes falo em outras artes mas já sabendo que não há mais barreiras entre elas, que as linguagens se diluíram na necessidade da linguagem em si, quando o meio já é a mensagem. A intenção era que ele fosse também escrito por colaboradores. O texto parou na última pergunta: Quem seria o mensageiro?. Enviei para algumas pessoas e pedi que completassem como quisessem, que respondessem a pergunta, comentassem, ou seja, fizessem o que desse na telha. Quando falava com as pessoas a respeito do que iria fazer enviar um texto para ser completado coletivamente todos se empolgaram com a idéia e disseram querer recebê-lo para colaborar. Entretanto, recebi apenas uma resposta, que dizia que em breve o autor enviaria comentário. Tentarei enviar novamente e ver o que acontece. Talvez mais tarde você trombe com uma nova versão...)
enviada por Carlos Henrique
11/09/2004 01:35
outro texto de há um certo tempo...
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010 :: e agora, mané?
Pretendo explicar, neste texto que segue, um pouco de minhas reflexões e preocupações frente aos impasses e desventuras cultivados pelo impulso redentor Moderno.
Primeiro explico os adjetivos. Por quê redentor? Falo desta forma por estar a busca de uma Modernidade diretamente vinculada à redenção humana por crenças como os mitos de progresso, desenvolvimento e libertação por meio destes. Esses mitos são como crenças religiosas, pois são discursos ditos em nome de uma coletividade (e poderia dizer unanimidade) inexistente, à qual os discordantes teriam de ser convertidos. Trata-se de um discurso que no fundo só pode ser legitimado em si mesmo.
Este discurso tem a capacidade de arrebanhar seguidores pela possibilidade de construção de uma realidade inexistente, mas que deve ser buscada. Temos então um descompasso entre realidades: a concreta, que é esta do agora e que contém a semente do potencial momento seguinte; a real, que é também virtual sendo atualização daquele potencial contido no momento anterior (que de uma maneira bem simples, é a realização de uma das infinitas possibilidades nas quais o momento anterior poderia desdobrar-se. É como a cena de Neo conversando com o Arquiteto em Matrix Reloaded); e a ideal, que é a meta a ser buscada, mas que nem sempre compreende o real caminho percorrido por algo indeterminado que é a cultura.
Como sociedade ideal, temos aquela redentora, sacralizada, do progresso humano, que livrará o homem das mazelas e desventuras. É a tentativa de dar uma identidade Universal, criando a ilusão de Unidade na busca de todos os seres humanos. Ora, sendo este ideal em si mesmo justificável, no fundo um discurso ilegítimo tomado como verdade, temos Maquiavel também autorizado a mostrar como os meios não importam, mas que podemos justificá-los pelos fins nos quais vão dar. Importa o objetivo, termo do qual temos a busca pelo objeto, isto é, que tem o objeto como meta.
Kant trata essa idéia que precede o objeto por Ideia. A Ideia kantiana consiste em saber o Espírito gerador do fato, aquilo que virtualmente contém todos os elementos necessários para que o fato aconteça. Podemos entender melhor a Ideia através do sistema utilizado por Heidegger para desvendar as construções culturais. Heidegger analisa etimologicamente termos que mostram a origem daquela e de outras palavras, apresentando então o Espírito, o costume, o gesto já existente e germe cultural que vem a tornar-se palavra, expressão verbal daquilo que vem antes dela; temos então um exemplo muito claro da Idéia que precede o objeto, tendo por Idéia este Espírito ainda não verbalizado e por objeto a palavra ou qualquer outra concretização que venha a tornar-se linguagem compartilhada.
Retomando o ideal que legitima (digo aqui livremente legitima sabendo já da falsidade contida neste discurso), somos impelidos a viver em função de um platonismo oficializado. Esta redenção, tal como o ser humano ideal, tal como o bem comum, pareceria muito lógico dados seus argumentos. Primeiro, diz-se em nome de uma segunda pessoa inexistente, que é representação tida por legítima pela aristocracia, já que esta julga a si mesma capaz de falar em nome de Nós, ditando-nos inclusive ideais, em nosso nome e do de Deus, caso da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Logo, nós devemos diz que um grupo restrito, por exemplo, nós aristocratas, que nos julgamos capazes de agir em nome e para o bem de Vós age em nome de Nós, Unidade buscada, dita universal, que recebe metas que em seu nome foram declaradas, e declaradas justas inclusive. Nós esclrecidos dizem coisas em nome de Nós legítimos enaquanto concretude, mas incapazes da formação de tal Unidade, senão pela existência de razões diferentes frutos de culturas diferentes frutos de realidades diferentes. Ou este último exemplo, já fragmentário, não linear, não causal, também embaralhado, onde teríamos, além da existência de razões diferentes frutos de culturas diferentes frutos de realidades diferentes, a possibilidade também das seguintes construções: existência de culturas diferentes frutos de razões diferentes frutos de realidades diferentes, existência de ralidades diferentes frutos de razões diferentes frutos de culturas diferentes, e assim intercalando os termos razão, cultura e realidade.
Retomando Ideia, temos em Kant uma clara explicação do que é pré. Tal como Deus, Espírito, constitui o homem, objeto, à sua imagem e semelhança. A concretização é fruto de uma Ideia. O descompasso se dá onde no lugar de entendermos os objetos como inteligentes na medida em que nos mostram o significado de suas existências, e também o significado por elas gerado, passamos a considerar a idéia, aí ideal, como algo pós. Daí objetos são produzidos, buscados, ou seja, somos objetivados em função de uma Ideia que está por vir, uma Ideia a realizar, e que ao ser alcançada (o que nunca acontecerá, por ser platônica e ilegítima) poderia então passar à seqüência natural da Ideia geradora do objeto. Mas antes, busquemos este ideal!, diz o discurso mentiroso.
Então agora podemos ter claro o que pretende-se modernamente. Tal redenção, pelos meios já citados (progresso, libertação a partir dos objetos, etc.) é justificada pelo argumento da Universalidade dos valores Modernos. Ou seja, pelo pressuposto de que estes valeriam para todos os homens, de todas as culturas. Universalidade também falsa assumida como verdade, dado que Nós, aristocratas e intelectuais, falamos em nome de Vós. Contudo, se temos Nós restrito em nome de e para Vós, é gerada a situação onde legitima-se a sensação de que Nós, que nos admitimos como portadores de valor universal, falamos em nome de todos nós. Dada a impossibilidade concreta de tal realização, isto, que surge de uma fantasia, torna-se ideal a ser buscado. É como quando miseráveis sentem-se felizes desfilando em carnaval para o sistema que os coloca em tal situação. Projeta-se a felicidade na coletividade, na fantasia, na dança, já que há uma realidade senão infeliz, ao menos inadequada. A primeira pessoa, no exemplo do carnaval, perde lugar para a segunda do plural. Não sou mais Eu quem diz, mas Nós. Mas dada a impossibilidade real de Nós dizermos, fica combinado que Eu digo em nome de Nós (eu+vós), e então Nós temos por dito o discurso da Modernidade em Nosso nome. Como a alegria e o senso de justiça do carnaval, isto é também uma fantasia.
A Modernidade pode então justificar casos como Auschwitz, construídos dentro de lógica semelhante e que num microcosmo apontam o que pode gerar um discurso de redenção em nome de uma cultura, neste caso etnia, restrita.
É o que Lyotard chama por narrativas, pois temos a narrativa do passado já tratada por História, e a narrativa de um projeto, que narra sua legitimidade enquanto sonho, e cujo objeto (da narrativa) é uma idéia ainda não concretizada. Trata-se o que somos da mesma forma que o que éramos, pois importa o que seremos, que é o objeto deste projeto. Entretanto, se realmente importa o que seremos, porque já não o somos?
Nostalgia do passado, do presente e do futuro: problemas da Modernidade. São seus?
enviada por Carlos Henrique
07/09/2004 22:51

(o texto abaixo foi escrito em 2003)
004: Chuva de Sapos
(Outro dia li um texto de TFG que achei interessante. Gostaria de escrever um parecido, pois vejo que há sempre alguém com uma angústia semelhante com relação à Arquitetura. Digo parecida apenas na sinceridade em expressar o que me leva a querer ser um Arquiteto que não é arquiteto...)
Estou no quarto ano. Já é quase fim de outubro. Este foi o ano dos ipês-roxos aqui em Bauru. Decidi ao final do primeiro semestre que começaria a investigar meu TFG. Entretanto, já tinha algumas coisas levemente encaminhadas desde o começo deste período letivo.
Muito me custou admitir, pois sempre busquei a Arte Arquitetura, mas esta já não mais se apresentava diante de mim como a arquitetura que conhecemos. E é duro sentir que na maioria das vezes o que poderíamos propor é só mais um pouquinho de vaidade. Ferreira Gullar diz que poderia fazer dez poemas por dia, porque ele sabe, mas faz apenas os necessários. E qual é a Arquitetura necessária ao homem contemporâneo? Parece-me que ela tem se desmanchado, ou que não mais existe. Daí a minha busca em talvez achar uma Arquitetura da imaterialidade em si. Daí o texto sobre o concerto na USC. Daí eu avisar meus possíveis orientadores que talvez não chegue a nenhum edifício, projeto urbanístico, que nem sei onde quero fazê-lo.
É claro que tudo isto vem do nosso projeto da Bienal, que vem de um descontentamento já no segundo ano com o que achavam os professores, e queriam que acreditássemos, que ser Arquiteto era ser arquiteto.
Descobri que toda essa arquitetura que vemos é muito vazia. Tentamos dar sentido a um edifício pela justeza de forma e função. Mas isto perde o sentido num tempo de planejarmos possibilidades. Então tentamos justificar a forma, que agrega a função, por discursos cientificistas relacionando o percurso do usuário ao percurso do átomo. Mas no urbanismo vemos que guardam para o Arquiteto (teimo em digitar Arquieto, o que faz certo sentido...) um posto tecnocrático nos órgãos públicos. Ou senão viramos levantadores de estatísticas que suprirão a necessidade funcional de pedestres, automóveis, usuários do transporte coletivo. Necessidades funcionais, nada além disto.
Busquei fundir tudo novamente. Esqueça essa história de urbanismo, no fundo é tudo Arquitetura!, pensava. Na verdade acabou tudo, isto sim. David Harvey acaba com qualquer esperança de solução urbana no estágio capitalista em que vivemos. E sendo tudo Arquitetura, pois ao fazermos um edifício estamos construindo a cidade (urbe), o impacto que nosso edifício causará será no fundo ou segregador, ou vaidoso, ou funcional, ou nulo mesmo. Entenda que não resumo Arquitetura a um edifício, mas procuro apenas neste exemplo uma analogia sobre a fusão dos pedacinhos que fragmentaram para que nos tornássemos especialistas em algo. Um edifício constrói a cidade, a paisagem, a cidade distribui edifícios, vegetação, elementos estranhos, e assim tudo segue, sem fim. E mesmo assim tudo isto pode existir sem ser Arquitetura.
Mas eu acho que a cidade poderia melhorar. E as soluções são simples: plante mais árvores, ilumine melhor, enfim, contrate um arquiteto. Mas onde estaria a expressividade de uma arte pública que simplesmente cumpre o que manda a cartilha do bom arquiteto se esta cartilha nos manda fazer um monte de besteiras?
Comecei a simpatizar com as idéias situacionistas sobre uma produção artística enquanto crítica à própria cultura e alienação. Nosso mundo é podado quando nasce, colocado para crescer numa fôrma fordista à qual não nos ajustamos. Daí não tem sentido programarmos uma arquitetura que programe para o programa (redundante a princípio, mas Vilhem Flusser esclarece em Pós-História). Só que não podemos mais desprogramar, apenas jogar areia no mecanismo. Mas para isto temos de entrar no aparelho como espiões. Hello Neo. A cultura já é em si instrumento alienante, mas sem a qual somos loucos (ou livres?). As drogas facilitariam o ajuste por propiciar fugas através de alterações da percepção, levando a outros dados do real. Mas é uma saída egoísta, já que a arte fornece novos dados ao real, e a reação que causam as drogas, esta (a arte) também causa no inconsciente coletivo, e na consciência do artista.
Mas daí, onde acaba esta busca? Não sei também. Não quero me tecnocratizar e fazer mais uma estação intermodal. Suprir necessidades funcionais, para que possamos continuar nossas rotinas absurdas, depositando ideais de felicidade em coisas absurdas como poder ir mais rápido para o trabalho só para poder ser explorado por mais tempo ou para ganhar mais dinheiro para novamente depositar felicidade em coisas absurdas. Não vou aqui reinventar a roda discorrendo sobre isto. Numa lógica do absurdo, da sensatez do racionalizável, há lugar para a Arte? Como seria uma Arquitetura-Arte, sendo esta Arquitetura já Arquitetura, Urbanismo, Paisagismo, Design, tudo entendido como uma unidade? Ou contendo também música, pintura, escultura, instalação, vídeo, jogo. Não seria? Ou seria NÃO? Prefiro pensar que chegamos numa trans-Arquitetura, que simplesmente É, independente do meio utilizado, desde que o processo gere Arquiteturas em movimento (no espaço e no tempo). Marcos Novak chama essa possibilidade de ArquiMúsica, pois uma já teve sua essência no espaço, e outra no tempo, mas com os estudos da física que novamente indissociam espaço e tempo, há a fusão destas duas grandezas para a produção de não sabemos mais o quê. Como afirma Paul Virillio, voltamos à grandeza inicial velocidade.
Lembro do primeiro projeto do 4º ano, com o qual não conseguíamos nos fazer entender simplesmente porque não conseguíamos dar um nome às coisas que fizemos. No final ficou Quiosques, em tom irônico, pelo caráter desprogramado da obra, passível de programação, mas não exigente de uma para fazer sentido. Os nomes das coisas não são as coisas, porque elas não são seus nomes a partir do momento em que apenas SÃO, sem adjetivação nem nada mais. Que é isto?, música, pintura, escultura, arquitetura...? Não sei o que é, mas que simplesmente É. Novamente digo, a Arquitetura É. Não importam os meios (música, instalações, culinária, escultura, poesia, pintura, vídeos, etc.), desde que a Arquitetura SEJA através deles e não apenas mais um. E entenda que Arquitetura nestes termos não é mais começo, meio e/ou fim. Ela É ATRAVÉS, e assim entendida como processo.
Sem chão (ainda bem!), quatro e meia da manhã, sem estímulo pelo que manda a convenção, desapontado com o que descobri ser Arquitetura ou com o que descobri não ser, sem saber quem poderia orientar meu TFG, termino com um relato da minha mais recente permanência prolongada na biblioteca.
Estávamos para entregar o projeto do que viria a ser uma plataforma flutuante. Vendo revistas (as mais legais, sofisticadas, graduadas...), tudo parecia ser a mesma coisa, tudo redundante. Comentávamos que não queríamos mais projetar estas coisas que todo mundo pode fazer, banais em sua maioria. E pensamos por quê não projetamos algo como uma árvore, ou uma nuvem, ou uma revoada de maritacas, ou uma chuva, ou o vento, a brisa, a garoa? E eu quero isto sem saber o que é: a Arquitetura da chuva.
enviada por Carlos Henrique
05/09/2004 00:10
EI!!! Aqui começa uma série dos meus textos do TFG (em ordem cronológica...)
Eu até tenho dois contos novos e uma poesia, mas pra poesia preciso photoshop ainda, e pros contos, autorização... pudores, pudores... ou respeitos, respeitos...? Ou será que pudores pudores=respeitos respeitos? Não sei. Ainda bem. Será? Não sei. Que se dane! Ah é??? Talvez...
(a poesia se chama "flululululu" ! Legal né? Parabéns pra Juju, que não sabe escrever!!! -- brincadeira)
Pois bem, segue o texto, depois tem mais confusão.
Não se esqueçam que os comments são minha medida para a freqüência das atualizações.
Segue o texto:
Concerto na USC
Primeiro semestre de 2003. Por volta de nove horas da noite. Tocava na USC (Universidade do Sagrado Coração), na cidade de Bauru, interior Oeste do Estado de São Paulo, uma orquestra vinda de Michigan, basicamente composta de alunos de graduação da escola de música. Regidos por um professor que mantém um programa de orquestra itinerante, tocavam essencialmente neste dia jazz com um repertório quase que inteiro da primeira metade do século XX.
O edifício da USC segue padrões modernos bem claros. Apesar de ter sido construído num momento em que muito se desacreditava do modernismo enquanto solução arquitetônica, calca suas raízes na FAU de Artigas e no brutalismo paulista. Sem nada muito surpreendente enquanto solução estético-formal, impressiona em alguns momentos pela monumentalidade e em outros pela ostentação da estrutura da universidade. Os bancos não são feitos para acomodar um público que ali possa estar por um grande período, mas conforma-se como descanso curto entre o trânsito entressalas, semelhante ao banco de descanso dos operários da fábrica de Tempos Modernos. Descanso enquanto parte do processo produtivo e alienante de uma linha de montagem fordista.
Também impressionam os jardins. Que beleza! Extremamente bem cuidados pelas tiazinhas de escuro Mary Poppins, ou azul claro, ou marrom, ou branco Mary Poppins, não importa a cor, mas a dedicação das freirinhas em mostrar-nos como pode ser bonita a vegetação extremamente ordenada e comandada pela mão do homem. Parterres marcam barreiras, caminhos, gramas de não pisar, massas floridas decoram trechos das mesmas, criam desenhos, quadrículas de rosas brancas, rosas vermelhas, rosas brancas, rosas vermelhas que remetem a Alice em seu mundo interior. Jardins para ver, mas não podemos interagir com os mesmos. Floreiras se espalham também, por todo o campus.
Na entrada há uma escada monumental, lembrando catedrais ou as igrejas de Ouro Preto. Mas é bem larga, como no museu do Ipiranga. Para quem sai da escola, descendo esta mesma escada, depara-se com um jardim de formas mais livres, quase Burle Marxilianas (se assim o poderia dizer), mas ainda composto mais em estilo francês que moderno. Moderno? Só no desenho da universidade católica. Ali impera a ordem.
No dia do concerto, no entanto, foi destituída do poder a palavra de Ordem. Perdeu a voz por falar mais alto o som da orquestra. Uma única exigência era feita pelos jovens músicos itinerantes. Tocaremos ao ar livre. Nada demais, se isto não implicasse na produção de uma Arquitetura nova, que parte do som para criar uma nova situação em seu entorno. Uma arquitetura de happening despercebido e muito natural tomou conta do público. Crianças brincavam na grama simulando as lutas de seus videogames, por vezes caindo os pequenos e médios por cima das controladas paredinhas vegetais com cerca de 40 centímetros de largura e um metro de altura. Casais de namorados e grupos de amigos deitaram na grama, pessoas pisavam na mesma e cadeiras eram também ali colocadas para melhor ver os músicos americanos. A escadaria, impositiva, transformou-se em democrática arquibancada e até nas árvores subia gente. Até os carros, por trás do palanque da apresentação, diminuíam a velocidade ao ouvirem a música, circulavam diferentes. Talvez por respeito, talvez por admiração. Ou curiosidade mesmo.
Enfim, o mais curioso mesmo foi ver tão claramente um exemplo de arquitetura a partir do som.
enviada por Carlos Henrique
26/08/2004 21:24
por fora
Não sabia chorar. Sabia, mas não conseguia. Não sabia era conseguir. Mas conseguia. Por isso gostava quando a chuva caía de repente e ficava todo encharcado. As gotas fortes e cheias lhe faziam bem escorrendo pelo rosto.
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contos tontos
Cada conto é um conto. Cada história uma duas três possíveis. Cada tonto é um conto que conta uma história duas três possíveis. Sempre um espetáculo à parte.
Tontos viviam aos milhares. Como muitos contos muitos. Contam tontos que contos sempre apareciam, para deleite e sofrimento de um dois três. Não eram sentimentos opostos estes, mas iguais. Eram apenas diferentes.
Os contos dos tontos nunca valiam. O que valia eram os tontos nos contos. Um dois três milhares! E todos muito divertidos. Nos contos, porque os tontos eram tristes.
Tristes viam contos, pois eram tontos. E tontos encontravam alegria nos contos, dentro dos quais viviam. Eram alegres nos contos os tontos. Mas eram tristes. Os contos os tontos e suas alegrias.
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os chatos
Alguns contos eram inevitáveis. Simplesmente apareciam. Chiavam-chiavam, incomodavam, mas apareciam sem serem convidados. Para a festa. Festa deles, porque para quem estava de fora, os transportando, pareciam mais um fardo. Mais um. Fardo, eram um, mas eram inevitáveis. E chatos, pois depois legais.
Muitas vezes se faziam de tontos. Os contos, porque eram inevitáveis. E como quem não quer nada, de tudo tomavam conta, até desaparecerem. Sem mais nem menos.
Inconvenientes, seguiam seus caminhos, esbarrando em quem aparecesse e em quem apreciasse. Ah, sim, esses levavam as maiores porradas. Não que estes quens apreciassem a inconveniência, mas era algo que acontecia pelo fato. De apreciarem. Este o fato, aqueles quens sujeitos.
Aí chiavam-chiavam. Espetavam. Só que agora de fora pra dentro, até que um dia saíam. Saíam porque não estavam fora. E porque eram legais E inconvenientes E inevitáveis. E. Continuavam
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boa noite
Tontos eram sinceros. Muito amigos de todos, circulavam livremente acenando e distribuindo sorrisos para quem passasse. Entretanto, reconheciam quando eram barrados na interação social.
Bobos ousavam atravessar o caminho dos tontos, e muitas vezes conseguiam. Não pela esperteza, mas porque livremente circulavam empurrando quem aparecesse pela frente. E os tontos, coitados, perdiam a vez. Não gostavam de ser desagradáveis.
De tal maneira, iam pois levando uma vida simples em mentirosas alegrias. De tarde, tontos sorriam. De manhã, dormiam inocentemente como bebês. À noite, recusavam os sonhos, como se os seus fossem virar realidade enquanto acordados elétricos permaneciam.
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vazio
Vazios
Dois fusão
Vácuo
Entre troca
Dois
Vazios
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para para para
Para conseguir é necessário querer querer, não apenas querer. Para chegar, caminhar caminhar, não só caminhar. Para fugir, necessário é correr correr, não apenas correr. Para sentir, é sofrer sofrer, não apenas sofrer. Como em bossa-nova com Vinícius de Morais a cantar cantar, não apenas cantar. Porque os poetas cantam cantam, choram choram, e sofrem de melancolia. Os comediantes também. Cantam cantam choram choram e sofrem de melancolia, como os palhaços os loucos os tontos os contos os sapos e as abóboras. Os filósofos se matam. As nuvens ufam. Só os bobos dão risada, pois percebem que são bobos. Os poetas os palhaços os cometas os babacas e os loucos e tontos e contos e sapos e abóboras não percebem nada, apenas sentem. Sentir é para poucos. Os palhaços os loucos os tontos os sopros os contos os socos e os poetas. Perceber? Só pros bobos.
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semtirrrraalegria
(Muitas vezes a alegria é a triste condição de não sentir.)
como
queria
sem ti
rrrrrrr
não
e não
sem
ti
rrrrr
não
se senti
rrrrr
ssse
sssim
senão
sem
sim
sentir a
ass
ssim
lá
ah
a
le
griah
éss
sem ti
rrrrrr não
ous
en ti
rrrrr
ssii
ssim
?
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enviada por Carlos Henrique
18/08/2004 01:25

enviada por Carlos Henrique
09/08/2004 18:34
+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Uns poemas. Uns meio bobos, outros também... hoje poemas bobos; amanhã, contos tontos.
+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
a santa
Toma o tombo
Cai do lombo da mula
m
Benta
Senta
espera a Santa
Canta
Canta
Canta
espera a Santa
e a Santa nada
como um peixe
Liso
n
Geada a
Santa canta
e senta
ao canto e no
ao lado do Santo
que canta
a(a)
Santa
º º º
sorocaba
As
cabeçadascrianças
do amor que
dor mentes traem
que da
trelatraem
Ida
Inês
e da inesperada fuga
através
só
o resto da
vida
só...
só...
º º º
se eira
Como poeira
Assenta-te ao lado
Meu
Como poeira
De beira
Sem eira
E a areia soube
Soube fazendo poeira
Como a pimenta do reino
Onde amigo sou do rei
Soubiou na verdade
Nem soube
Apenas pousou
Fazendo da poeira areia
De novo
Em velho
Barracão de zinco
Virgem!
Maria!
Grita, sem resposta
E espera a areia
Que um dia num canto da praia
Corrompeu o velho
E o mar
Que ousou tocá-la
Deixando-o
Com gosto amargo
De sal na alma
(Para só sempre)
Ao Sol
de dia
Ao Céu
a vida
º º º
váquo
Nada, apenas isso
Nadando na profusão de confusões
que se formam e desmancham
Ou que mancham e desformam
Ou que ou que
Como nuvens
De algo tão doce
Quanto algodão doce
Que desmancha na boca
Como manga
Manchando a branca roupa de missa
Desfiada entre os dentes da rima
rica
Vida de desesperadas partidas
e indas
e vindas
e lindas
e findas
e sintas
e mintas
e finjas
e aindas
E ainda
se fazem
meninas.
º º º
saia
Mole
que nem
eu a
mando
ando
Mole que nem
eu
estou a
fim de
ti
Mole que
nem eu
aí
pra vo
cê
Sabre que
você
dentro
de mim
fere
º º º
monstro
Sorria
sadia
a alegria
que lhe
vinha
Sorria
tadinha
a colorida
fada
madrinha
Sorria
em fim
devolta
toda aposta
que aparecia
sozinha
dançando
sussurrante aos olhos
E aos
poucos
se fechava
de sono
Inteiro
º º º
º º º
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
e umas imagens do TFG: : : :
º
º
º
enviada por Carlos Henrique
07/08/2004 14:17
Vou começar a colocar alguns escritos em série, pra recapitular. No meio vão uns novos. E poemas, imagens, poemas-imagem. Sim!!! Imagens, até que enfim!!!
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antenor
Livre de associações, desenvolvera-se distante do mundo real. Procurava autonomia.
Desvinculado de tudo, a única coisa que lhe interessava era procurar um ajuste neste cotidiano absurdo.
Um dia disseram que era louco. Achou loucura esse papo. Ao menos era isso que achava, já que cada dia mais e mais coisas estranhas lhe apareciam diante dos olhos.
Afinal, o que seria normal? Cair água do céu é normal? É normal uma força invisível que te empurra e gela a cara chamada vento? É normal alguns seres voarem e nascerem de bolinhas brancas expelidas pelo traseiro? E outros que nem se movem? Inclusive alguns sujeitos pensam que eles são como pedras, mas são tão vivos como nós. Passam o dia inteiro mamando sol por pára-ventos verdes. E depois ainda era louco. Coitado.
Livre das associações, cresceu independente em meio a tanta loucura. Contudo, as pessoas agiam como se nada acontecesse. Quer dizer, menos com ele, que achava todos estranhos: pareciam ter um tipo incomum de semelhança.
Pensou uma vez em anunciar o fim dos tempos. Outra o fim das vezes. Mas não era sua vez.
dia
Gostava de ver o pôr-do-sol. Todos os dias ficava à espreita do momento em que ele começaria a se deitar nas nuvens cheias daquele começo de ano chuvoso. E quando acontecia, deslumbrava-se com os desdobramentos das cores que ocorriam. Do forte branco das nuvens que passavam ao amarelo, e alaranjado, e púrpura, e novamente azul, só que agora um azul cheio de poesia e melancólico. Também neste momento olhava para o lado oposto e via o céu ali perto de onde o sol nascera, e ali também cores surgiam em ordenada profusão. Muitas vezes gostava até mais deste outro céu que cobria sua confusa alegria.
Era uma pena, contudo, que fosse embora. Ele corria para ver sempre mais um pouco, caminhando atrás do dia que, insensível, o deixava sem nenhuma explicação.
Sabia que amanhã veria outro. Mesmo em dias de céu limpo e todo azuis continuava admirado. Triste ficava pela partida que via, não havia outro jeito. Triste.
Entendia que veria mais inúmeros parecidos, e que cada dia possuía uma partida irreversível. Então alegrava-se. E ficava triste novamente. Porque amanhã poderia não mais ter outro espetáculo destes. Aquilo que o extasiara partira, e acabava.
gota em si
Barulho forte e pesado. Como um sapo pulando nágua, a torneira pingava a cada vinte minutos. Pingava barulho. Isto muito a irritava.
A casa, uma bagunça que a fazia sentir-se amarga por dentro e surda por fora. Poderia levantar e começar a organizar as coisas. Ficava sentada, sem ter a iniciativa mínima necessária para ao menos apertar o botão verde e redondo que desligava a TV. Ficava ali, sentada, como uma americana gorda. Mudando de canal. Ou como as outras estátuas ao seu redor.
Ali, por mais vinte minutos, não agüentava esperar. A gota de um barulho ensurdecedor que a torneira que ela não fecharia insistia em pingar.
Ai!, que raiva!
Pingava.
cansado
Olhava o quarto. Uma bagunça. Estava ofegante, cansado, não conseguiria fazer tudo o que tinha de fazer. Poderia morrer amanhã e ainda havia muito por ser feito.
Sentava. Continuava ofegante.
Pensava. Seus pensamentos cansavam, estavam também ofegantes. Roupas, livros, sapatos, pastas, discos, folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas espalhadas pelo chão.
Novamente, pensava. Cansava. Ainda havia um monte de coisas para fazer. E sua velocidade, por maior que fosse, parecia câmera lenta aos olhos do mundo que chacoalhava lá fora.
Folheava o livro que estava no chão (um dos vinte começados). Estamos atrasados! Estamos atrasados! dizia na tevê o personagem do livro agora in Disneys version já há mais de meio século.
Corra! Ainda há muito que fazer!
Lavava louça, roupa, limpava a casa, tomava banho, trocava de roupa, demorava. Tudo demorava. Tudo! Demorava, demorava, demorava, demorava. A pressa tornaria cada momento muito superficial, ficaria mais acelerado, seu coração palpitava... Mais pressa?
Era muita coisa, muitos pensamentos, todos fazendo parte uns dos outros, indistintos. Estava ofegante. Ia arrumar o quarto, mas não tinha tempo! Teria de deixar de fazer algo muito importante para arrumá-lo. Então dele pedaços se depositavam sobre o carpete velho, em forma de livros, roupas, pastas, sapatos, discos e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas.
chão
Muita coisa acontecera desde que deixara de ser anão. Encostara a cabeça no teto, os braços no armário, as costas na parede e os pés no chão. Não cabia mais anão em si. Não cabia. Saltava, empurrava, jogava, queimava e tossia com a fumaça.
Era como se o mundo tivesse encolhido. Precisava se animar. Beber, se embebedar e embobecer para sorrir.
Corria, na sala apertada, corria. De si, na sala apertada, corria. E quanto mais corria mais sentia que estava cansando aquele de quem atrás corria. Si.
Em si tocava e não gostava do que via com os dedos e ouvidos e os olhos e fios e os rios corriam por seus alhos.
Ão, o anão, queria parar de empurrar o seu teto e parede e o chão e armário e começar a escrever um livro. Mas as páginas eram poucas. Tinha muito o que não escrever.
Um dia fez tanta força que dormiu, ali, espremido no chão. E acordou na hora do almoço, com uma lágrima nos olhos e uma chuva na garganta.
João via tudo branco. João via tudo preto.
João não sabia distinguir formas, cores, rostos, volumes, profundidades, distâncias. Tudo o que via era uma luz branca, ofuscante, clara. Branco. João tudo preto via. Não distinguia formas, volumes, distâncias, cores, profundidades, rostos. Via apenas uma treva em imagem silenciosa e sons barulhentos, como João o fazia em branco.
João não sabia se era cego. Afinal, via tudo branco. Será que ele via tudo branco ou não via nada, e o nada era branco? Não sabia, porque João, que via em preto, dizia que não sabia se era cego e o nada era preto ou se via tudo em preto. João só sabia que João via em preto e ele via em branco, tal como João, que sabia que João via em branco e ele em preto.
O primeiro era preto. O segundo, branco.
Um dia se encontraram. Não era a primeira vez, mas a primeira que se contava. João nada viu. Olhou nos olhos de João, e não sabia se havia conseguido ver o branco dos olhos de João, pois via tudo branco. Da mesma forma não sabia se vira João ou não. Já João, ao ver João, pensou não ver, ou ter visto apenas o preto João e seus olhos negros. Como não via branco, não sabia se o que vira era João, se só vira o preto dos olhos do preto João ou se não vira nada, e o nada ver era preto. João, defronte deste, titubeava também sobre o nada ver ser branco.
João nem sabia o que era preto. Só sabia que não via, pois via tudo branco. João, semelhantemente, também desconhecia o branco, por isso incerto do preto. Só sabia que não via o branco por ver tudo em preto.
Quando se encontraram, João nada viu. Nem João. Era o que pensaram. Afinal, João via branco, e João, preto.
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Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo - Unesp Bauru (alguns estudos)





enviada por Carlos Henrique
31/07/2004 17:34
http://fredbar.sites.uol.com.br/semnem.htm
enviada por Carlos Henrique
30/07/2004 00:16
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Uma música meladinha. Uma barra de cereais de maracujá, tão dura que para morde-la tinha que coloca-la no canto da boca e quebrá-la com os dentes laterais. Um copo dágua para descer. Via o reflexo das lâmpadas na mesa que escrevia e ouvia as pessoas trabalhando a sua volta. Encontrava-se em um local grande, e também gelado, mas não era um ambiente frio. Era confortável, mesmo não tendo nenhum sofá com almofadas fofas.
Eram três lâmpadas compridas. Duas em diagonal formavam um v e a outra atravessava o meio destas. Elas não se tocavam. A do meio passava um pouco além das outras duas. A sombra entre a lâmpada da direita e a do meio era menos intensa que sua vizinha. Da do meio via um risco branco, das outras um cilindro.
Havia terminado de brincar. Já tinha construído dois colares de pedrinhas coloridas.
Podia ver nas luzes uma pata de galinha formada com os riscos. Ou uma cabana de índio. Ou velas de um pequeno barco. Percebeu que ainda brincava.
A campainha tocou. Uma menininha linda entrou. Vestia uma jaqueta jeans, calças brancas e uma sandália preta e pink. Tinha um salto alto, em formato Anabela. Aquela figura havia desconcentrado-a. Passou tão rápido. Uma voz doce. Contava o dinheiro que trazia para acertar umas contas. Deveria estar pagando algo para seus pais.
Como vento, levou seus pensamentos para lá. Parecia que as lâmpadas tinham apagado.
por Camila Caqui
enviada por Carlos Henrique
28/07/2004 00:17
: : O Vento : :
Queria transformar o vento
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco.
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco
mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda
estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo do vento - que lera em Shakespeare
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino
Fotografei aquele vento de crinas soltas.
(Manoel de Barros - Ensaios Fotográficos, p.27)
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore
(Manoel de Barros)
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o que importa é a poesia!
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arte não é cultura
arte não é cultura
arte não é cultura
arte não é cultura
arte não é cultura
One of the foremost tasks of art has always been the creation of a demand which could be fully satisfied only later. The history of every art form shows critical epochs in which a certain art form aspires to effects which could be fully obtained only with a changed technical standard, that is to say, in a new art form.
Walter Benjamin
* * *
Eu não consigo entender como as pessoas ficam cinco anos numa faculdade de Arquitetura sem fazer arte nenhuma. São autorizados a ser arquitetos autores de projetos medíocres, simples construções alienadas e desnecessárias, que não se justificam nem pelo fato de representarem um ofício construtivo, pois este ofício é na maioria das vezes familiar desconhecido dos alunos.
Aí olho para o mundo em que estamos. E é também uma pena. Será que um dia tudo isso vai sarar lá fora? Não sou nem inocente o suficiente nem nada que justifique a capacidade de olhar e ver que tudo o que temos é uma construção legítima de cada um, sinceramente composta. Não há não linearidade que negue que sempre a força de alguns prevaleceu sobre a vontade de outros. E se estes outros sofreram algumas penas, não foi porque eles queriam, mas quiseram para eles.
Ninguém opta por desejar o indesejável senão por indução. Podemos ver que sempre alguns procuram ser infelizes por isto ser o que mais ocorreu em suas vidas. Escolhem sempre este caminho por ser o conhecido e tradicional, e os humanos geralmente estão habituados a fazer aquilo que lhes é de costume por isto ser uma forma de garantir maior conhecimento acerca do que se faz, ou seja, maior garantia de que sabem o que estão fazendo. Só que muitas vezes este ciclo é indesejável, e se não há uma atitude para mudar as coisas, continuam acontecendo.
Mas se o mundo comum é indesejável, porque compartilhar? Compartilhar o quê, o indesejável? Não quero para mim, assim como os programados não quereriam se o soubessem. E será que aquele que almeja a esfera da arte não é apenas portador de algum ítem do programa que diz que sabe da programação alheia? Não sei. Sei no máximo que o artista vislumbra a possibilidade daquilo que poderia ser, ou que é também, através do que em si mesmo ele, o artista, é.
Programadores e programados. Agora, é a era da programação para a individualidade. Pseudo, é claro, como tudo que se programa. Vilhém Flusser já há muito mostrou que mesmo os programadores são agentes do programa. Daí nos apresentam a individualidade como algo a ser adquirido, novo bem de consumo e de obsolescência programada, como a de um rádio ou carro que ano que vem muda de cara. Eu também preciso mudar!
Cirurgia plástica, maquiagens, comportamento, roupas de grife, roupas de brechó, incisões cutâneas. A construção do ser agora passa pela anexação de gadgets à personalidade. No vácuo da mercantilização da cultura, vem o afeto como mais recente agregador de mais valia, ou como fetiche a ser consumido através de objetos novos e usados. E junto com uma relação narcísica que estabelecemos com a possibilidade de expressão de idéias individuais programadas e apenas aparentemente autênticas, adquirimos aquilo que nos trará o afago da próxima estação (e da última, se vier de um sebo ou brechó, com defeitos e marcas de uso dexados por outrem e agora, indiferentemente, agregados da minha personalidade).
Depois de um mundo industrializado, que buscava a perfeição, temos um homem que se manifesta no sentido de aprender e fazer associações informacionais. A superfície polida deixa de ser objeto de desejo, e agora temos a superfície danificada, a apreensão parcial porém mais rica de cada detalhe que pode ser único. E eu posso possuir um dado desses. Informação concreta é só informação.
Estamos, contudo, mais próximos de nós mesmos no sentido de estarmos exteriormente estabelecendo relações como as estabelecidas pelos organismos e sistemas complexos: de maneira caótica. Assim é observado e entendido o desenvolvimento de uma linguagem própria televisiva pela não-linearidade da MTV, pelo zapping, pelo hipertexto, pelo videogame e a tranposição que mutuamente se dá entre estas e outras manifestações de linguagem como o comportamento de adolescentes em seus ritos de afirmação, onde mostram que entendem muito mais que seus pais sobre a sincronia e a harmonia que há nas estrelas, nos planetas, nas poeiras, luzes, rochas, chuvas, nos ventos e nas relações estabelecidas entre estes e outras partes de um organismo maior do qual fazem parte.
Lembramos que a arte não trabalha para afirmar a cultura existente. Se assim o fosse, viveríamos os mesmos hábitos, as mesmas intenções, e no máximo teríamos expressões plásticas (e não estéticas) do mundo em que vivemos. Fica um ponto para pensarmos nas disciplinas que muitos cursos apresentam como Plástica. Se estivessem realmente preocupados com a Arte, seus dirigentes trocariam o nome para Estética.
Voltando ao habitual e à arte, esta última apresenta-se enquanto crítica e registro daquilo que é indesejável na cultura.
Não diria que é contracultura, pois não é algo que se coloca contra a cultura. A afirmação do contra precisa da existência daquilo que contraria para se afirmar. Isto é, se A justifica sua existência em ser contra B, A precisa de B para se afirmar; se A precisa de B para se afirmar, A se afirma afirmando B negativamente.
Arte e política não é tirarmos um modelo para colocarmos outro, mas apresentar a transição possível para um novo entendimento da realidade e sê-lo. Um termo mais adequado seria transcultura. Pois apresenta ou conduz a cultura para um desvio de rota, ou simplismente é composto de dados que atravessam a cultura e, como os vírus e bactérias que permeiam o corpo humano, deixam informações genéticas geradoras de mutação.
Humanidade sem cultura não existe. E cultura implica alienação em alguma instância, pois somos formados e nos formamos por informações que se apresentam já construídas quando chegamos ao mundo. A Arte é a possibilidade e a necessidade que temos de colocarmos estas informações em cheque, quebrando símbolos e hábitos inconsistentes, incoerentes e incondizentes com a liberdade que virtualmente se apresenta através da insatisfação com o concreto. Daí a beleza da arte concreta.
A arte não é a favor nem contra a cultura. Não depende nem independe da cultura. Ela se relaciona com a cultura. Não estamos mais num momento de valor dado às coisas, mas de valorizarmos a relação estabelecida. E é claro que o mercado também é informação ao nos mostrar que é capaz de criar simulações de afeto para que as desejemos, consumindo assim até o que se torna obsoleto como se fosse novo, pois sua novidade, seu novo valor, é justamente sua obsolescência e a nostalgia simbólica que contém.
Temos, é claro, nas obras de arte, itens culturais e itens transcendentes, mas o que a justifica enquanto item que ajudará na construção histórica e também na desconstrução (e sendo assim, como arte) é o transcendente estar na síntese de cada gesto. Digo isto porque cada gesto é, em essência, não a reprodução de uma técnica ou aplicação de determinado conhecimento acadêmico com fim em si mesmo, mas sim a presentificação de um modo diferente de ocupar o espaço e o tempo, uma atitude que repensa dados do mundo simbólico na sua insignificância enquanto repetição desnecessária no hábito cotidiano ou enquanto superficialidade a ser superada.
A forma como ocupo o mundo, como o visto e como rasgo essas roupas são colocados também no fazer artístico, e este não como mera intensão, mas simples fruto da necessidade de expor o que a cultura, em seu ciclo repetitivo, reprime no meu desejo de habitar e em sua forma essencial de se manifestar linguagem.
O homem habita o mundo porque tem consciência de si. Habitar é ser no mundo. Ser no mundo é construir. Construções são a própria construção da consciência de que existo. E construir não é apenas edificar abrigos de tijolo, madeira, aço, titânio, alumínio, terra, palha, fibra de vidro, plexiglass, gotículas de água ou o que for. Construir se afirma enquanto apresentar possibilidades para que o homem habite com liberdade o espaço-tempo e sinta-se à vontade para tranformá-lo e ser também o arquiteto da sua existência.
O arquiteto, então, artista que é, deve buscar o vislumbre de um design de situação que possibilite a permeabilidade das informações entre si, um design do através.
(escrito por Carlos Henrique - texto ainda sendo reformulado, corrigido e talvez continuado.)
enviada por Carlos Henrique
27/06/2004 15:06
Arquitetura Transmissível
Um dos teóricos da Arquitetura Líquida, Marcos Novak, questiona a validade de uma Arquitetura que se proponha estritamente espacial enquanto os estudos da física quântica há muito nos mostraram que não há como entendermos espaço desvinculado de tempo. Logo, a grandeza primordial para projetarmos volta a ser espaço-tempo, ou Velocidade (ex.: m/s, Km/h, etc.).
Isto implica que não pensemos numa Arquitetura onde, por mais que atividades se desenrolem lá dentro, haja somente espaços estáticos para tempos dinâmicos. Porquê não pensarmos num espaço também dinâmico, como o tempo que ali existe e a cada momento se transforma, como num espetáculo de dança?
Tendo como parâmetro a perda da noção de território geográfico a partir do claro entendimento das ligações em rede , Novak coloca também a possibilidade de criarmos projetos transmissíveis.
Para tal, devemos pensar também num Design de transmissão, onde o meio ou a própria transmissão enquanto parâmetro nos coloca uma maneira diferente de pensarmos o projeto, pois até a transmissão deve ser Design. Continuando, há o dado topológico, que permita que o projeto se desvincule dos parâmetros territoriais geográficos, mas responda com eficiência aos parâmetros superficiais (de superfície de apoio mesmo). Precisamos de um projeto que se acomode e estabeleça uma troca respeitosa com o locus.
Novak se propõe pesquisar projetos no ciberespaço, este já clara extensão do espaço urbano. Alguns Arquitetos têm procurado por parâmetros matemáticos e softwares que convertam simples equações em projetos complexos. Teoria fractal.
Mas com dados indicando que no planeta temos, mais do que um grande contingente de eletronicamente conectados, um contingente muito maior de eletronicamente desconectados (via computador de maneira direta, isto é, micro-internet), como pensarmos num projeto transmissível de construção barata, simples, de fáceis entendimento e transmissão por não exigir enquanto meio único o eletrônico; algo que possamos enviar por carta, dentro de garrafas, e-mail, telégrafo, telefone, rádio, entre outros?
Assim surge o projeto proposto para a oficina do ENEA. Projeto de processo, e não de fim. TransArquitetura por transpassar os limites cartesianos de linguagem, por transcendê-los. ArquiMúsica por buscar tempo-espaço animado, projeto que se desloca e é deslocado, mutante, de velocidade inconstante.
É um projeto transmissível para qualquer local do mundo, e que no Design do seu processo construtivo está o dinamismo e a democracia que há na ação livre ao ser construído e concluído no presente. As pessoas têm apenas alguns parâmetros de partida, mas muito se discutirá para fechar o projeto, que é de cada indivíduo e que remete à rede que o gerou. É diferente de uma planta que chega pronta ao canteiro. Isso refletirá a cultura individual daqueles que o produziram, a história pessoal de cada um, os anseios e personalidades, e também os pontos onde todos se tocam de alguma maneira. O conflito saudável que gera a cidade viva e incontrolável está também presente neste processo.
Depois de pronto, é um projeto para o mundo, que, mesmo sendo feito na África com parâmetros-instruções recebidas do Caribe, pode ser transportado para a Rússia e lá se ajustar à opinião do usuário (que pode nem ser um russo, mas um viajante que está de passagem por lá).
Se transmitido...
Breves instruções para um projeto transmitido:
1. Monte um cubo (pode ser outra forma qualquer, inclusive desconstruída. O cubo é apenas uma simplificação para o modelo de partida) em material leve, de preferência madeira.
2. Trace uma linha que passe por todas as faces e termine no mesmo ponto em que começou. Esta é uma linha infinita que envolve a peça, um corte sem começo-meio-fim.
3. Corte as faces por onde passa a linha.
4. Junte a peça pelas laterais. As arestas do cubo inicial não precisam permanecer juntas, é até recomendável algumas se desfaçam. O objetivo é criar uma peça que possa montar-se num cubo, mas que aberta no chão nos tire a noção da forma inicial (cubo). Se juntar cada peça a apenas outras duas ou uma, isto facilitará a perda de referências ao cubo.
5. Está pronto o seu projeto (ou maquete). Agora é só soltá-lo por aí de deixar que isto interfira no cotidiano das pessoas e vice-versa.
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novak... http://www.centrifuge.org/marcos/
linkchain... http://medialounge.org/linkchain.html
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ESTA PROPOSTA PROJETUAL SERÁ TAMBÉM UMA OFICINA DO enea brasília 2004
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eneaBrasília... http://www.enea2004.com.br
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enviada por Carlos Henrique
20/06/2004 20:06
Ilusões e Realidade
Ilusões. A cidade perfeita. Linda, abrilhantada, polida, limpa. Sem pessoas. Ninguém mora lá. Nem um eco sequer. Mas como ninguém quer morar aqui?, indaga Milo. Descobre que estão todos morando em Realidade.
Realidade é uma cidade diferente das outras. As outras você acha que vê. Ou vê. Realidade você tem certeza que não vê. É uma cidade que um dia existiu, mas com o tempo as pessoas foram andando cada vez mais cabisbaixas, olhando para o chão, para seus afazeres, e não olhavam mais para a cidade. Ela então começou misteriosamente a desaparecer. E ninguém reparou! Continuaram a abrir e fechar portas, gavetas, a subir escadas, descer elevadores, andar por corredores, mesmo sendo tudo invisível!
Lembra o que Celeste Olquiaga coloca como uma doença da Metrópole principalmente: a psicastenia. É causada pelo rebatimento de imagens, onde não temos mais relação com onde estamos e o lugar se hibridiza de maneira perversa, fazendo com que não importe notar onde estou, mas sim importa que eu cuide muito bem de meus afazeres. Um ambiente gerador disso é um corredor envidraçado, seja na cidade ou num shopping.
A cidade rebate o céu em seus edifícios, dinamizando sua imagem e ao mesmo tempo desmantelando-a. A cidade-céu é na verdade a cidade sem face nem sombra. E numa era de cidades formadas por redes imateriais de conexão, via informações e tempo, onde não cabe mais a delimitação pelo espaço geográfico e sua catalogação em termos de renda percapita, densidade demográfica, área ocupável. Temos a metrópole fragmentada e pulverizada pelo mundo, tal como a cidade média, a pequena, o vilarejo. E não há mais o paradigma do modo de bem viver, como tivemos no passado o fetiche cosmopolita que hoje se desdobra nos bens culturais de consumo. Cultura descartável, mas sem conflito entre seres que a renove.
Cultura sem arte? A arte é agente de mudanças culturais, enquanto a cultura cuida do estabelecido. Mas mudando a cultura, a arte gera a cultura que será amanhã. Mas sem arte, é sinal que não há cultura. Não estou certo... talvez a arte esteja em outro lugar.
O pragmatismo, marca desse modo de viver alienado, que cobra uma personalidade adequadamente adestrada ao meio, tira a necessidade de contemplar da vida cotidiana. Também poda a expressão individual cotidiana e suas conseqüências. Uma pena. Deixamos de nos conhecer. Ao outro e a nós mesmos. Afinal, o gesto do outro não é uma reação à minha ação, mas uma forma de expressar como ele entendeu este meu último ato . E no outro me vejo, por suas manifestações. Por gesto, me reporto ao gesto artístico, físico, político, ou seja, qualquer ação que não anule a existência do indivíduo.
No Shopping Center, o contemplativo é substituído pelo desejo de posse. Não é o ter pelo entender, mas o ter pela conquista material. Nos vemos refletidos em vitrines, as quais apresentam nosso objeto de desejo. Consumimos aquilo que não é humano para agregarmos a nós mesmos valores de mercadorias, que são os únicos que passamos a conhecer.
Morar não é dormir em cama imóvel, diz Vilém Flusser. Moramos onde habitamos, e habitamos o que e onde nos é habitual. Habitualizamos o estranho colocando neste construções que afirmam nosso Ser na Terra.
No texto Habitar, construir, morar, Martin Heidegger apresenta a relação entre morar, habitar, construir e ser. São variações sobre a manifestação de um mesmo entendimento: existir. Ser consciente da própria existência cria o ser e seus desdobramentos como necessidade lingüística de afirmação individual. E a afirmação individual, em si, já afirma e repensa valores coletivos, servindo de auto-consciência quando na esfera da arte e de ato político quando do conflito cotidiano.
Contudo, nos acostumamos a viver sem Ser, preocupados muito mais em corrermos atrás de satisfação material por meio de objetos sem sentido senão tapar socialmente o vazio que há em cada um. O desajuste se dá quando não ocorre o Ser através do morar, construir, habitar e, conseqüentemente, do existir.
Daí é a morte em vida. Ou a vida sem humano. Ou a vida sem Ser. Daí a psicastenia; e Realidade.
enviada por Carlos Henrique
09/06/2004 05:46
Sabe, eu queria postar um texto há certo tempo (desde 4ª feira), mas essa merda do blig só embaça. Então tenho que burlar o sistema de postagem para conseguir desovar mais um texto sem importância na rede. Que saco!
joãojoão
João via tudo branco. João via tudo preto.
João não sabia distinguir formas, cores, rostos, volumes, profundidades, distâncias. Tudo o que via era uma luz branca, ofuscante, clara. Branco. João tudo preto via. Não distinguia formas, volumes, distâncias, cores, profundidades, rostos. Via apenas uma treva em imagem silenciosa e sons barulhentos, como João o fazia em branco.
João não sabia se era cego. Afinal, via tudo branco. Será que ele via tudo branco ou não via nada, e o nada era branco? Não sabia, porque João, que via em preto, dizia que não sabia se era cego e o nada era preto ou se via tudo em preto. João só sabia que João via em preto e ele via em branco, tal como João, que sabia que João via em branco e ele em preto.
O primeiro era preto. O segundo, branco.
Um dia se encontraram. Não era a primeira vez, mas a primeira que se contava. João nada viu. Olhou nos olhos de João, e não sabia se havia conseguido ver o branco dos olhos de João, pois via tudo branco. Da mesma forma não sabia se vira João ou não. Já João, ao ver João, pensou não ver, ou ter visto apenas o preto João e seus olhos negros. Como não via branco, não sabia se o que vira era João, se só vira o preto dos olhos do preto João ou se não vira nada, e o nada ver era preto. João, defronte deste, titubeava também sobre o nada ver ser branco.
João nem sabia o que era preto. Só sabia que não via, pois via tudo branco. João, semelhantemente, também desconhecia o branco, por isso incerto do preto. Só sabia que não via o branco por ver tudo em preto.
Quando se encontraram, João nada viu. Nem João. Era o que pensaram. Afinal, João via branco, e João, preto.
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Eu prefiro a deriva. Pode ser que os caminhos que eu determino não sejam traçados pelo presente. Então eu terei perdido duas vezes, a deriva e o que eu determinei mas não aconteceu. Ou três, se contar com o futuro idealizado que se desfaz. Ou quatro, se contar com a força em resistir ao vento que bate no rosto.
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Programas... o programa implantado pelo discurso progressista justifica Auschwitz. O programa implantado pelo discurso da coletividade justifica regimes autoritários ditos democráticos. Toda democracia é autoritária se não for pela implantação da liberdade antes de tudo. Toda liberdade é vã se não for perigosa. Toda liberdade, se não for perigosa, não alça a esfera da arte. Toda existência, sem arte, é vã. Tudo é arte se acessarmos a poesia contida.
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Isso até parece bonito e justo, não fosse a possibilidade de ser mentira...
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[[[segue o post antigo:]]] ...
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HOJE RECOMENDO:
1. O BLOGUE DA CAQUI:
http://chuvafriadeverao.weblogger.terra.com.br/
2. DUAS POESIAS DO FERNANDO PESSOA:
Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Sobre viver e pensar
Fernando Pessoa, 18-9-1933
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
3. A REFLEXÃO DO VAGABUNDO DO GUSTAVO:
... o que é que a gente tem que fazer, ou o que será que a gente quer fazer? acho que quero fazer, mas às vezes parece que não quero fazer nada, ou então é pq não tem nada que eu queira fazer. não é que eu não queira fazer nada, é que não tem nada que eu queira fazer. mas mesmo assim a gente faz pq tem que fazer, ou será que a gente faz pq quer fazer?
4. QUE A HUMANIDADE APRENDA A OUVIR PINK FLOYD
(Se você acha "Another brick in the wall (part II)" a melhor música do Pink Floyd, então aprenda a ouvir Pink Floyd. Ninguém aprende isso no rádio, e provavelmente você acha que aprendeu... Se você acha "Another brick in the wall (part II)" a melhor música do Pink Floyd, você não gosta de Pink Floyd, mas de "Another brick in the wall (part II)", só isso.)
5. QUE DESENCANE.
(EU NEM SOU MÉDICO PRA FICAR RECOMENDANDO COISAS... FAÇA O QUE QUISER.)
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eRA SÓ ISSO HOJE. aGORA LEIA O QUE FALTA E VAZE DAQUI. bLÓGUE É PRA SER RÁPIDO, PÁ-PUM. aCHO QUE AMANHÃ TEM NOVA HISTORINHA. oU NÃO. tEM SE EU ESTIVER A FIM.
enviada por Carlos Henrique
05/06/2004 03:14
chão
Muita coisa acontecera desde que deixara de ser anão. Encostara a cabeça no teto, os braços no armário, as costas na parede e os pés no chão. Não cabia mais anão em si. Não cabia. Saltava, empurrava, jogava, queimava e tossia com a fumaça.
Era como se o mundo tivesse encolhido. Precisava se animar. Beber, se embebedar e embobecer para sorrir.
Corria, na sala apertada, corria. De si, na sala apertada, corria. E quanto mais corria mais sentia que estava cansando aquele de quem atrás corria. Si.
Em si tocava e não gostava do que via com os dedos e ouvidos e os olhos e fios e os rios corriam por seus alhos.
Ão, o anão, queria parar de empurrar o seu teto e parede e o chão e armário e começar a escrever um livro. Mas as páginas eram poucas. Tinha muito o que não escrever.
Um dia fez tanta força que dormiu, ali, espremido no chão. E acordou na hora do almoço, com uma lágrima nos olhos e uma chuva na garganta.
enviada por Carlos Henrique
29/05/2004 02:34
Diálogo sobre o não-objeto
(texto lançado em 1959 por Ferreira Gullar)
A - Que é o não-objeto?
B - É preciso primeiro saber o que entendo aqui por objeto. Entendo aqui por objeto a coisa material tal como se dá a nós, naturalmente, ligada às designações e usos cotidianos: a borracha, o lápis, a pêra, o sapato etc. Nessa condição, o objeto se esgota na referência de uso e de sentido. Por contradição, podemos estabelecer uma primeira definição do não-objeto: o não-objeto não se esgota nas referências de uso e sentido porque não se insere na condição do útil e da designação verbal.
A - Mas os objetos tampouco se esgotam sempre naquelas referências. Sob o nome pêra, está a pêra com a sua densidade material de coisa.
B - Sim. Quando nos subtraímos à ordem cultural do mundo, vemos os objetos sem nome - e nos defrontamos com a sua opacidade de coisa. Pode dizer-se que, nessas circunstâncias, o objeto torna-se próximo do que chamo de não-objeto, mas precisamente neste ponto manifesta-se a diferença fundamental entre os dois: sem nome, o objeto torna-se urna presença absurda, opaca, em que a percepção esbarra; sem nome, o objeto é impenetrável, inabordável, clara e insuportavelmente exterior ao sujeito. Não-objeto não possui essa opacidade, e daí o seu nome: o não-objeto é transparente à percepção, no sentido de que se franqueia a ela. E a diferença entre os dois torna-se mais precisa: só pelas conotações que o nome e o uso estabelecem entre o objeto e o mundo do sujeito pode o objeto ser apreendido e assimilado pelo sujeito. É, pois, o objeto um ser híbrido, composto de nome e coisa, como duas camadas superpostas das quais uma apenas se rende ao homem - o nome. O não-objeto, pelo contrário, uno, íntegro, franco. A relação que mantém com o sujeito dispensa intermediário. Ele possui uma significação também, mas essa significação é imanente à sua própria forma, que é pura significação.
A - Noutras palavras, você diz que o não-objeto é um objeto total, integral?
B - Coloque o problema nos termos da filosofia existencial sartreana. Enquanto o sujeito existe para si, o objeto, a coisa, existe em si.
Deixando de lado as implicações que o filósofo tira dessa contradição fundamental, fiquemos com o fato de que ela reafirma a opacidade da coisa que repousa em si mesma e a perplexidade do homem que se sente exilado entre elas. Um tecido de significações e intenções constitui o mundo humano, sob o qual persiste a opacidade do mundo inumano, exterior ao homem. A experiência do objeto sem nome é a experiência do exílio. A luta por vencer a contradição sujeito-objeto está no cerne de todo o conhecimento humano, de toda a experiência humana e, particularmente, na realização da obra de arte. Um pintor que figura uma natureza-morta não está fazendo outra coisa senão tentando resolver essa contradição. Ao representar aqueles objetos cotidianos, o artista caminha do nível conceitual em que eles usualmente se encontram para o nível estético, onde uma nova significação, não-conceitual, emerge deles: a significação imanente à forma.
A - Nesse caso, uma natureza-morta é também um não-objeto.
B - Não. Um objeto representado é quase-objeto, é como se fosse um objeto: ele se desprende da condição de objeto, mas não atinge a de não-objeto; é, com referência ao objeto real, um objeto fictício. O não-objeto não é uma representação mas uma presentação. Se o objeto está num extremo da experiência, o não-objeto está no outro, e o objeto representado está entre os dois, a meio caminho.
A - Se é assim, que diferença existe entre a significação imanente à forma do quase-objeto e a significação imanente à forma do não-objeto?
B - A diferença reside no fato de que o quase-objeto é a representação de um objeto real, enquanto o não-objeto não representa nada, mas apenas se apresenta. Ora, desse modo, a significação que se revela na forma de um e de outro não é da mesma natureza. Partindo do objeto real, o artista que o representa na tela consegue desligá-lo das relações conceituais - transfigurando-o na forma, na cor, na situação espacial - mas jamais logrará cortar definitivamente esses liames que estão na fonte mesma de sua experiência: a significação que se dá no quase-objeto estava imanente no objeto. Isso não se verifica no caso do não-objeto que, por não se referir a nenhum objeto real, por ser o aparecimento primeiro de uma forma, funda em si mesmo sua significação.
A - Poder-se-ia dizer, então, que toda pintura não-figurativa é um não-objeto?
B - Também não. A diferença entre a pintura figurativa e a pintura dita abstrata é de grau, mas não de natureza. A pintura não-figurativa, embora realize um grau maior de abstração, ainda se mantém presa ao problema da representação do objeto.
A - Mas como, se o objeto já não aparece nela?
B - Tomemos, por exemplo, a pintura de dois dos mais importantes criadores da arte não-figurativa: Mondrian e Malevitch. É fato que a figura do objeto já não aparece em seus quadros, mas, para Malevitch, o quadrado preto sobre fundo branco é a sensibilidade da ausência do objeto e, para Mondrian, as verticais e horizontais exprimem o conflito fundamental da natureza. Noutras palavras, essas formas e linhas geométricas substituem ali os objetos, são uma alusão extrema a eles. Mesmo que Mondrian e Malevitch não expressassem, em suas teorias, essa relação, nem por isso as deixaríamos de ver. Na verdade, nos quadros de Mondrian e Malevitch permanece a oposição da figura geométrica sobre um fundo metafórico, de representação. Digo metafórico porque o espaço, ali, simboliza o espaço do inundo, da mesma maneira que as formas simbolizam os objetos. Por ser metafórico, fictício, esse espaço se confina naturalmente nos limites da tela, e mesmo se a moldura desses quadros se resume a urna simples régua de madeira, sua função é ainda de moldura. Tampouco adiantaria retirar materialmente a moldura desses quadros, uma vez que é da natureza daquele espaço pintado ali o confinamento, a incomunicabilidade com o espaço exterior. O mesmo pode-se dizer das obras de Kandinsky e seus seguidores. Trata-se de um espaço de representação abstrata. Esse espaço não existe no não-objeto, que é, por definição, não representativo mas presentativo.
A - Pretende você dizer que o não-objeto resolve a contradição figura-fundo?
B - No plano da percepção essa contradição é insolúvel, uma vez que o fundo é condição mesma do perceber: tudo que se percebe está sobre um fundo. Daí o impasse a que chegou a arte abstrata, após ter reduzido sua expressão ao campo da percepção pura: topou com esse dualismo insuperável que repete, noutro plano, a contradição sujeito-objeto. No não-objeto, por não se pôr o problema da representação, o da figura-fundo também não se põe. O fundo sobre o qual se percebe o não-objeto não é o fundo metafórico da expressão abstrata, mas o espaço real - o mundo.
A - É, pois, o mesmo fundo sobre o qual se percebem os objetos, não?
B - De certo modo, sim. Liberto da base e da moldura, o não-objeto insere-se diretamente no espaço, do mesmo modo que um objeto. Mas aquela transferência estrutural do não-objeto, que o distingue do objeto, permite-nos dizer que ele transcende o espaço, e não por iludi-lo (como faz o objeto), mas por nele se inserir radicalmente. Nascendo diretamente no e do espaço, o não-objeto é ao mesmo tempo um trabalhar e um refundar desse espaço: o renascer permanente da forma e do espaço. Essa transformação espacial é a própria condição do nascimento do não-objeto.
A - Você falou em moldura e base. Basta eliminar esses elementos para fazer um não-objeto?
B - Não, da mesma maneira que não basta eliminar a figura para fazer um bom quadro abstrato. Não se trata da presença ou ausência material da moldura ou da base. Trata-se de criar sem o apoio desses elementos. A moldura e a base, na pintura e na escultura respectivamente, condicionam a expressão do artista e são, também, os marcos de uma determinada posição em face da arte. O que importa, pois, não é fazer um quadro sem moldura ou uma escultura sem base, mas resolver os novos problemas que se põem quando a expressão já não conta com aqueles elementos.
A - Que significam a moldura e a base?
B - Significam que a linguagem da obra é representativa, mesmo se as formas são abstratas (falo da base e da moldura como elementos pressupostos na expressão). Quando o problema da representação é ultrapassado, a moldura e a base perdem a função. Mas não basta simplesmente retirá-las da obra. No caso da escultura, a base indica uma posição privilegiada, e se a escultura não possui base (materialmente falando) mas detém aquele privilégio, o problema da base continua inerente a ela. Não se trata, portanto, de um não-objeto.
A - Conclui-se daí que a não-representação é um caráter básico do não-objeto. É ele ainda pintura ou escultura?
B - As considerações a que nos obriga o aparecimento do não-objeto conduziram-nos a ver a representação como elemento inerente à pintura e à escultura. Ao contrário do que se vem afirmando há pelo menos 50 anos, só em alguns casos excepcionais a arte contemporânea ultrapassou o problema da representação. Essas exceções - os contra-relevos de Taflin, as arquiteturas suprematistas de Malevitch - estão fora das definições do que seja pintura, escultura, arquitetura. O mesmo se dá com os trabalhos do grupo neoconcreto - e daí o nome de não-objeto. Acredito que uma arte realmente não-representativa repele as noções acadêmicas de gênero artístico. O próprio conceito de arte vacila, se não o tomamos na acepção fundamental de experiência primeira.
A - Quer dizer que, na sua opinião, pintura e escultura acabaram...
B - Ou talvez nunca tenham, de fato, existido. Pelo menos na época moderna, todo artista trabalha no limite de sua arte, tentando ultrapassá-lo. Trata-se sempre de uma antiarte. O que importava para Brancusi - quer ele o soubesse ou não - não era fazer escultura, mas a escultura. Contraditoriamente, para fazer a escultura, ele se distanciava cada vez mais de tudo o que se conhecia como escultura. O mesmo pode-se dizer de Pevsner, de Vantongerloo, de Picasso, de Mondrian, de Kandinsky, de Malevitch, de Pollock etc. O artista busca, na pintura ou na escultura, a experiência primeira do mundo, mas a própria pintura (ou escultura) já é um mundo conceituado, que é preciso ultrapassar. E finalmente chegou-se ao momento atual, em que o artista já não se preocupa em fazer pintura ou escultura, para através delas reencontrar a experiência primeira do mundo: tenta precipitar diretamente essa experiência. É uma redescoberta do mundo: as formas, as cores, o espaço não pertencem a esta ou àquela linguagem artística, mas à experiência viva e indeterminada do homem. Lidar diretamente com esses elementos, fora dos quadros institucionais da arte, é formulá-lo pela primeira vez. E aqui se observa outra diferença fundamental entre um quadro e um não-objeto: aquele nasce de um esforço do artista para, gradativamente, romper o mundo já conceitual da linguagem artística - vem-se de fora para dentro, da significação usual para uma nova significação; o não-objeto irrompe de dentro para fora, da não-significação para a significação.
A - Dentro da teoria do não-objeto, como se coloca precisamente o problema da poesia?
B - Também o poeta busca a experiência primeira do mundo, também ele trabalha no limite da linguagem poética.
Na época moderna, vimos a destruição das formas fixas de estrofe, de verso, para chegar-se ao verso livre. Mas, depois, o verso livre também tornou-se um instrumento estereotipado: rebentou-se a sintaxe e chegou-se à palavra como elemento primeiro. Da mesma maneira que a cor libertou-se da pintura, a palavra libertou-se da poesia. O poeta tem a palavra, mas já não tem um quadro estético preestabelecido onde colocá-la habilmente. Ele se defronta com ela desarmado, sem nenhuma possibilidade definida, mas com todas as possibilidades indefinidas. O que importa não é fazer um poema nem mesmo fazer um não-objeto, mas revelar o quanto de mundo se deposita na palavra.
A - Você já escreveu que, no que se refere à poesia, o não-objeto é a procura de um lugar para a palavra. Que quer dizer isto?
B - É que a palavra ou está na frase - onde perde sua individualidade - ou no dicionário, onde se encontra sozinha e mutilada, pois é dada como mera denotação. 0 não-objeto verbal é o antidicionário: o lugar onde a palavra isolada irradia toda a sua carga. Os elementos visuais que ali se casam a ela têm a função de explicitar, intensificar, concretizar a multivocidade que a palavra encerra.
A - Há, então, uma fusão de pintura, relevo, escultura e poesia?
B - Creio que não. Planos, formas, cores são elementos da realidade, antes de serem elementos de uma linguagem artística. No não-objeto os elementos plásticos não são usados com o mesmo sentido que na pintura ou na escultura. Já são escolhidos segundo um propósito verbal, isto é: da mesma maneira que um poeta tradicional elabora seu poema convocando e repelindo palavras, o poeta neo-concreto convoca, além das palavras, formas, cores, movimentos, num nível em que a linguagem verbal e a linguagem plástica se interpenetram. Ninguém ignora que nenhuma experiência humana se limita a um dos cinco sentidos do homem, uma vez que o homem reage com uma totalidade e que, na simbólica geral do corpo (M. Ponty), os sentidos se decifram uns aos outros.
A - O não-objeto deve ter movimento?
B - Nessa altura, cabe esclarecer que não digo como deve ser o não-objeto, mas apenas defino o que já existe, o que está feito. A maioria dos não-objetos existentes implica, de uma forma ou de outra, o movimento sobre ele do espectador ou do leitor. O espectador é solicitado a usar o não-objeto. A mera contemplação não basta para revelar o sentido da obra - e o espectador passa da contemplação à ação. Mas o que a sua ação produz é a obra mesma, porque esse uso, previsto na estrutura da obra, é absorvido por ela, revela-a e incorpora-se à sua significação. O não-objeto é concebido no tempo: é uma imobilidade aberta a uma mobilidade aberta a uma imobilidade aberta. A contemplação conduz à ação que conduz a uma nova contemplação. Diante do espectador, o não-objeto apresenta-se como inconcluso e lhe oferece os meios de ser concluído. O espectador age, mas o tempo de sua ação não flui, não transcende a obra, não se perde além dela: incorpora-se a ela, e dura. A ação não consome a obra, mas a enriquece: depois da ação, a obra é mais que antes. E essa segunda contemplação já contém, além da forma vista pela primeira vez, um passado em que o espectador e a obra se fundiram: ele verteu nela o seu tempo. O não-objeto reclama o espectador (trata-se ainda de espectador?), não como testemunha passiva de sua existência, mas como a condição mesma de seu fazer-se. Sem ele, a obra existe apenas em potência, à espera do gesto humano que a atualize.
enviada por Carlos Henrique
24/05/2004 03:00
http://once-upon-a-forest.com/
enviada por Carlos Henrique
22/05/2004 02:37
passeio cultural em hipertextos :: http://www.obraprima.net/materias/materias.phtml?pin=514
o dia em que as máquinas tiverem consciência, o fato de trabalharem para nós pode ser considerado trabalho escravo? coisas assim e + + + + + + em: http://robosapiens.mit.edu/
em 20 anos este brinquedo será mais comum e mais sofisticado do que podemos imaginar. Loucura? Pergunte a alguém de 50 anos sobre os videogames... :: http://www.sony.net/SonyInfo/QRIO/story/
textos muito bons, do Flusser e outros :: http://www.cisc.org.br/biblioteca/
e em breve... "TEORIA DO NÃO-OBJETO" ! ! ! dessa vez vai ! ! !
enviada por Carlos Henrique
19/05/2004 03:20
para para para
Para conseguir é necessário querer querer, não apenas querer. Para chegar, caminhar caminhar, não só caminhar. Para fugir, necessário é correr correr, não apenas correr. Para sentir, é sofrer sofrer, não apenas sofrer. Como em bossa-nova com Vinícius de Morais a cantar cantar, não apenas cantar. Porque os poetas cantam cantam, choram choram, e sofrem de melancolia. Os comediantes também. Cantam cantam choram choram e sofrem de melancolia, como os palhaços os loucos os tontos os contos os sapos e as abóboras. Os filósofos se matam. As nuvens ufam. Só os bobos dão risada, pois percebem que são bobos. Os poetas os palhaços os cometas os babacas e os loucos e tontos e contos e sapos e abóboras não percebem nada, apenas sentem. Sentir é para poucos. Os palhaços os loucos os tontos os sopros os contos os socos e os poetas. Perceber? Só pros bobos.
enviada por Carlos Henrique
13/05/2004 03:35
cansado
Olhava o quarto. Uma bagunça. Estava ofegante, cansado, não conseguiria fazer tudo o que tinha de fazer. Poderia morrer amanhã e muitas tarefas ainda havia.
Sentava. Continuava ofegante.
Pensava. Seus pensamentos cansavam, estavam também ofegantes. Roupas, livros, sapatos, pastas, discos, folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas espalhadas pelo chão.
Novamente, pensava. Cansava. Ainda havia um monte de coisas para fazer. E sua velocidade, por maior que fosse, parecia câmera lenta aos olhos do mundo que chacoalhava lá fora.
Folheava o livro que estava no chão (um dos vinte começados). Estamos atrasados! Estamos atrasados! dizia na tevê o personagem do livro agora in Disneys version já há mais de meio século.
Corra! Ainda há muito que fazer!
Lavava louça, roupa, limpava a casa, tomava banho, trocava de roupa, demorava. Tudo demorava. Tudo! Demorava, demorava, demorava, demorava. A pressa tornaria cada momento muito superficial, ficaria mais acelerado, seu coração palpitava... Mais pressa?
Era muita coisa, muitos pensamentos, todos fazendo parte uns dos outros, indistintos. Estava ofegante. Ia arrumar o quarto, mas não tinha tempo! Teria de deixar de fazer algo muito importante para arrumá-lo. Então dele pedaços se depositavam sobre o carpete velho, em forma de livros, roupas, pastas, sapatos, discos e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas e folhas.
enviada por Carlos Henrique
12/05/2004 02:17
A vida oblíqua? Bem sei que há um desencontro leve entre as coisas, elas quase se chocam, há desencontros entre os seres que se perdem uns aos outros entre palavras que quase não dizem mais nada. Mas quase nos entendemos nesse leve desencontro, nesse quase que é a única forma de suportar a vida em cheio, pois um encontro brusco face a face com ela nos assustaria, espaventaria os seus delicados fios de teia de aranha. Nós somos de soslaio para não comprometer o que pressentimos de infinitamente outro nessa vida de que te falo.
Clarice Lispector, Água Viva
enviada por Carlos Henrique
08/05/2004 19:43
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enviada por Carlos Henrique
08/05/2004 19:42
não pude deixar de postar o link a seguir. simplesmente o melhor e mais claro acervo de textos que vi até agora na internet.
http://www.cisc.org.br/biblioteca/
boa diversão.
enviada por Carlos Henrique
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